Capítulo 45 — Diálogo no topo da montanha com Shi Qing
por NexoNovelCapítulo 45 — Diálogo no topo da montanha com Shi Qing
Templo Yunding.
Ele ficava no Pico Ziyun, um dos setenta e dois picos da Montanha Yunding. O Pico Ziyun não era o mais alto, mas sua altitude também se aproximava dos 1.800 metros. Todas as manhãs, ou depois da chuva, uma camada de nuvens e névoa envolvia o portão da montanha. Era mesmo muito bonito de se ver.
Não muito longe, à direita e um pouco à frente do portão do Templo Yunding, havia um precipício de mil metros. À beira do penhasco, projetava-se para fora uma pequena plataforma circular. Dali, era possível apreciar, como que suspenso no ar, o mar de nuvens e a paisagem das montanhas ao redor.
Antes, aquele lugar se chamava Penhasco do Sacrifício, porque muitas pessoas desesperadas se jogavam dali. Depois, os monges do templo mudaram o nome para Penhasco da Ascensão, querendo dizer que talvez aqueles que saltavam dali já tivessem se tornado imortais.
Depois que Shi Qing foi elevado ao posto de primeiro assento, achou que era preciso aconselhar quem pensasse em se jogar a refletir mais duas vezes. Por isso, mudou o nome para Plataforma de Perguntar ao Céu.
Perguntar ao céu, perguntar à terra, perguntar a si mesmo.
A Plataforma de Perguntar ao Céu era como um campo natural de prática espiritual, repousando com firmeza entre as nuvens, como que compartilhando o próprio céu. Por isso, também era uma das atrações mais famosas do Templo Yunding.
Nesse momento, Shi Qing estava sentado sozinho, de pernas cruzadas, no centro da Plataforma de Perguntar ao Céu. Com os olhos semicerrados, começou algo que, visto de fora, parecia um diálogo entre suas próprias consciências.
Perguntei:
— Você sabe que é uma marionete?
Shi Qing respondeu:
— Marionete? Não. Eu não penso assim. Eu me defino como o seu backup.
Perguntei:
— Backup? Como assim?
Shi Qing disse:
— Você acha que pode morrer? Ou seja, corre o risco de encontrar inimigos que tentem matá-lo?
Eu disse:
— Claro. Já enfrentei de verdade algumas tentativas de assassinato. Se não fosse por alguém me salvar, ou porque minha própria capacidade ainda dava para o gasto, eu já teria morrido de verdade.
Shi Qing disse:
— Então você precisa de um backup. Isto é, quando você realmente enfrentar uma morte inevitável, sua consciência precisa ter um lugar onde possa se alojar para escapar. E esse lugar sou eu.
Eu disse:
— Ah? Você quer dizer que eu, ou talvez muitas outras pessoas, desde que tenhamos um backup, podemos não morrer? Basta escapar para dentro do backup?
Shi Qing disse:
— Claro. Os Humanos de Elite quase nunca morrem. Não é que não possam ser mortos; é que a consciência dos Humanos de Elite pode ser transferida. Como agora: você não se transferiu para dentro do meu corpo de consciência? A consciência é a raiz de uma pessoa. Ela existe de forma independente. Já o corpo físico, em essência, é matéria biológica, e pode ser recriado por biotecnologia. Esse é o segredo da imortalidade dos Humanos de Elite.
Perguntei, sem entender:
— A consciência, por acaso, não é gerada automaticamente pelo cérebro humano? Ela é o resultado da interação complexa dos neurônios do tálamo. Como pode existir de forma independente?
Shi Qing explicou:
— A consciência, de fato, é uma forma altamente ordenada de organização dentro do corpo humano. Ela não pode existir do nada; precisa de uma base material. Mas nem toda matéria ordenada é capaz de produzir consciência. Por exemplo, uma pessoa que acabou de morrer e um corpo humano vivo não têm nenhuma diferença quanto à ordenação material e à fisiologia. Então a pessoa que acabou de morrer tem consciência?
Eu disse:
— Hm, essa questão é complicada demais e acadêmica demais. Vamos discutir isso depois. Primeiro quero perguntar: como você foi criado? E como tomou consciência de quem era? Ou, mudando de assunto: você já viu um Humano de Elite?
Shi Qing disse:
— Isso não é só uma pergunta. Eu nasci sabendo quem eu era. Não sei quem me fabricou. Desde que me lembro, estou neste templo. O mundo lá fora é tão grande, mas eu só estive nesta pequena região de Bashu. Principalmente por segurança. Essa é a minha missão. Quando você realmente precisar de mim, nós dois vamos nos fundir. Então seremos uma só pessoa. Por isso, não sinto nenhum desequilíbrio. Quanto aos Humanos de Elite, só vi uma mulher. E isso foi quando eu ainda era criança.
Eu disse:
— Uma mulher? De que idade?
Shi Qing disse:
— Devia ter uns trinta e poucos anos. Ela veio me ver carregando uma criança. Assim que vi aquela criança, soube quem ela era. Na época, a mulher assentiu para mim e disse: “Está aceitável.” Mandou que eu tomasse cuidado, não arrumasse confusão, não saísse da região de Bashu e, tanto quanto possível, ficasse no templo.
Eu disse:
— Você sabia quem era aquela criança? Quem?
Shi Qing disse:
— Você nem tentou adivinhar e já perguntou. Claro que era você.
Eu disse:
— Eu? Você está dizendo que viu minha mãe? Então como pode ter certeza de que ela era uma Humana de Elite?
Shi Qing disse:
— Naquela época, a Guerra Humano-Máquina tinha acabado de se espalhar pelo mundo inteiro. Eu fui colocado no templo porque aqui era o lugar mais seguro. Eu compreendia que era o recurso de reserva daquela criança. Isso era determinado pelo design genético. Todos os Humanos de Elite têm superpoderes. Podem mudar de forma, possuem conhecimento infinito, riqueza infinita, interligação de informações, não têm doenças nem morte. São os seres de IA de nível inferior que adotam a integração humano-máquina. Naquele momento, sua mãe fez uma verificação de consciência em mim, então naturalmente também pude reconhecê-la pela consciência.
Eu disse em voz baixa:
— Então era isso. Nesse caso, será que a avó que me criou… é minha mãe?
Shi Qing disse:
— Disso você não precisa duvidar. Só sua mãe poderia proteger você desse jeito. Para os Humanos de Elite, mudar de aparência não precisa de nenhuma tecnologia externa; basta controlar os próprios componentes biológicos por meio da IA. Os Humanos de Elite podem ser entendidos como outro tipo de ser humano.
Perguntei:
— Então você sabe como posso encontrá-la?
Shi Qing sorriu e disse:
— Isso você não pode me perguntar. Meu círculo de vida é muito estreito. Só a vi uma vez, e foi dezenove anos atrás. Ela veio apenas confirmar se eu, este backup, era adequado ou não. Depois disso, nunca mais a vi. Mas aconselho você a não ter pressa de vê-la. Porque você ainda não cresceu o suficiente. O motivo de sua mãe ter exilado você para entrar sozinho na sociedade foi justamente esperar que você crescesse por conta própria, passando por mais ventos e chuvas. Só assim uma pessoa desenvolve impulso interno. Conhecimento e capacidades podem ser instilados, mas impulso interno não. Ele é a força motriz do crescimento de uma pessoa. Se alguém vive sempre sob a proteção da mãe, nunca vai amadurecer. Não acha?
Assenti e disse:
— Entendo. O princípio eu entendo. Mas, sendo humano, sempre há muita coisa da qual não conseguimos nos desprender. O afeto familiar é o critério básico que separa o humano do não humano, não é?
Nós dois estávamos conversando quando, de repente, alguém nos interrompeu:
— Shi Qing, não é bom ficar sentado aqui por muito tempo. O vento, o frio e a umidade são fortes. Cuidado para não pegar friagem.
Shi Qing virou a cabeça e viu que era o abade, de pé atrás dele. Era um monge idoso de cabelos brancos, mestre de Shi Qing. Shi Qing tinha sido levado ao templo ainda pequeno, e fora esse mestre quem o criara.
Shi Qing disse:
— Mestre, este discípulo estava pensando em algumas questões. Já vou me retirar.
Mestre e discípulo estavam prestes a sair. Nesse momento, uma jovem mulher estilosa subiu apressada à Plataforma de Perguntar ao Céu.
Por meio dos olhos de Shi Qing, percebi que havia algo errado na expressão dela. Além disso, não muito longe, havia outras duas pessoas, ofegantes, correndo para cá.
Puxei de leve o abade e disse:
— Mestre, há algo errado com essa mulher. Vamos esperar mais um pouco.
Como esperado, a mulher caminhou até a beira do penhasco, soltou um longo suspiro para o céu e fechou os olhos.
Primeiro, jogou penhasco abaixo a bolsa que levava consigo. Depois, deixou-se cair de costas, precipitando-se pelo penhasco.
As duas pessoas que ainda corriam para chegar gritavam o nome da moça, sem parar de correr.
Mas não dava mais tempo.
Só que havia eu.
Dei um leve impulso com os pés e saltei. Antes que a mulher começasse a despencar, agarrei de uma vez os longos cabelos dela, que se erguiam no ar, puxei com força e a joguei de volta.
Depois, agarrei a parede do penhasco com uma das mãos e saltei de volta.
O abade ficou assustadíssimo. Olhou para mim, nervoso, e disse:
— Shi Qing, você… quando aprendeu essa técnica?
Eu disse ao mestre:
— Mestre, venho sempre aqui. Conheço cada pedra deste lugar, então nada vai acontecer.
Só então consegui ver claramente as duas pessoas que tinham nos alcançado. Eram uma mulher de idade e um homem jovem. A mulher devia ter quase sessenta anos; o homem, por volta de trinta.
A mulher desabou sentada no chão e, chorando, gritou quase em cantilena:
— Como é que você foi pensar numa coisa dessas? Se você morresse, como a criança ia viver?
O homem também se aproximou para puxar a moça. Sem dizer uma palavra, queria levá-la de volta para casa.
A jovem mulher que eu havia puxado para cima estava sem expressão. Sentada no chão com frieza, imóvel, mantinha os olhos vidrados no horizonte.
Fui até ela, agachei-me, fiz uma varredura com a visão penetrante e disse:
— Moça, você está com depressão pós-parto, não está? Depressão não é doença terminal. Não há necessidade de chegar a esse beco sem saída. Desde que vá ao hospital para acompanhamento e tratamento, pode se recuperar.
Só então a mulher me olhou com atenção e disse:
— Mestre, o senhor está dizendo que depressão tem cura? Mas já faz muito tempo que passo noites inteiras sem dormir. Fico irritada por dentro, não consigo me livrar disso e só penso em morrer. Peço ao mestre que me salve!
Eu disse:
— Conheço uma especialista em neurologia. Já a ouvi dizer que a raiz da depressão é uma deficiência de serotonina. Desde que se suplemente mais triptofano, faça exercícios adequados e combine isso com tratamento medicamentoso, é possível melhorar.
A mulher pareceu ter visto uma esperança de vida e disse:
— É verdade? Eles sempre me culpam, dizem que sou eu que não consigo aceitar as coisas, que fico presa num beco sem saída. Mas eu não sei como aceitar. Foi por isso que quis acabar com tudo de uma vez.
Virei a cabeça, olhei para a mulher de idade e para o homem e disse:
— Vocês dois, benfeitores, me escutem. Depressão não é uma questão de a pessoa não conseguir pensar direito. Só aconselhar não adianta. É uma doença, e vem acompanhada de alterações orgânicas. É como quando seu corpo se machuca: não é com palavras de consolo que se cura uma doença. É preciso combinar isso com intervenção física. Hoje a medicina é tão avançada. No hospital, há medicamentos específicos.
O homem disse, espantado:
— É verdade? Eu sempre achei que fosse porque ela não conseguia pensar direito. Por isso, vivia tentando aconselhá-la, explicando as coisas para ela. Mas quanto mais eu aconselhava, mais irritada ela ficava. Nós também vivíamos brigando por causa disso.
Eu disse:
— Se você pegar um resfriado e eu aconselhar você, acha que isso cura? Por isso, doença precisa de tratamento direcionado. A serotonina é um neurotransmissor. Quando falta, os neurônios deixam de se comunicar direito, e a transmissão de informações passa a dar erro. Isso não é um problema de emoção, mas uma alteração fisiológica. Por isso, é preciso procurar diagnóstico e tratamento em um hospital especializado.
Eu sabia dessas coisas por causa da minha experiência tratando os incapacitados na base dos incapacitados. O principal dano sofrido pelos incapacitados era nos neurônios, e eles eram extremamente propensos a desenvolver depressão. A doutora Yan era especialista nessa área e me ajudou muito no trabalho de tratamento.
Aproveitando a experiência de tratamento que tive na base dos incapacitados, coloquei uma das mãos, com leveza, sobre a cabeça da mulher e liberei minhas ondas cerebrais em direção a ela, usando-as para estimular a síntese de mais serotonina dentro do crânio.
Cerca de quinze minutos depois, o rosto da mulher ficou mais corado. Eu conseguia sentir que a esperança dela em relação à vida havia se reacendido.
