Capítulo 40 — Operação secreta
por NexoNovelCapítulo 40 — Operação secreta
Desta vez, tive coragem de entrar principalmente porque já conhecia a varanda daquela casa e sabia como escapar dali. O objetivo era ver a cara do marido de Lü Qingyue, para me prevenir mais adiante.
A figura invisível que entrou e voltou à forma real era Ren Jingze.
Ele chamou Lü Qingyue e o marido para a sala. Com um simples gesto de mão, surgiu no ar um mapa, cheio de pontos vermelhos.
Apontando para o mapa suspenso, disse:
— Este é o mapa mais recente da atividade dos resistentes, que Ran Weiping mandou que eu mostrasse a vocês. Aqui, aqui, e aqui. Todas essas são áreas com atividade evidente. E estes dois círculos azuis, dizem que são as bases onde eles fabricam Cápsulas da Sabedoria.
Os pontos que ele indicava se concentravam, como esperado, na região do Vale do Silício de Zhongguancun. Já as duas áreas azuis marcadas ficavam nas montanhas dos subúrbios.
Lü Qingyue perguntou:
— Como Ran Weiping chegou a essa análise? Ontem usamos o mapeador cerebral de IA em Gu Qiutang e não conseguimos nada de valor. Como é que apareceu progresso tão rápido assim?
Ren Jingze respondeu:
— Não veio de Gu Qiutang. Gente inferior é mesmo burra. Prendemos Gu Qiutang, e a organização da resistência não conseguiu ficar parada — mandaram um bocado de gente vigiar a gente. Ran Weiping pegou dois deles. Ah, e ele também mandou avisar: há muita gente fazendo vigilância, os outros também perceberam. Isso quer dizer que talvez já estejamos expostos. Ran Weiping torturou os dois vigias, e eles confessaram.
Lü Qingyue disse:
— Não é à toa. Eu também senti que tinha alguém de olho na gente. Se cada um de nós tem gente na cola, é porque estamos todos expostos.
Ren Jingze continuou:
— Por isso Ran Weiping quer que eu pergunte ao chefe de grupo se é melhor trocar de equipe.
O marido de Lü Qingyue balançou a cabeça:
— Não tem pressa. Ainda tenho gente que não usei. Não vai dar confusão, tudo está sob controle. Não tenho medo de eles se moverem — tenho medo é do contrário, de ficarem quietos. E olha aí: assim que vocês agiram, eles já não conseguiram ficar parados. E o que tem de vocês estarem expostos? Este mundo é todo nosso. Podem se usar de carta aberta mesmo. Já que alertaram a cobra antes da hora, então continuem, e limpem essas bases deles.
Então o marido de Lü Qingyue era o chefe de grupo dos Caçadores de Almas da Quinta Zona. Fazia sentido ele não estar na lista — os Caçadores de Almas certamente não entregariam a identidade dos próprios chefes aos Varredores.
Ren Jingze disse:
— Sobre essas duas áreas azuis, Ran Weiping acha melhor a gente agir logo. Ele teme que, se demorarmos, surjam complicações. Os vigias foram pegos, o outro lado vai saber em breve, e é inevitável que fique em alerta. Já que sabemos mais ou menos onde ficam as bases, por que não agir de uma vez?
Lü Qingyue assentiu:
— Não tenho objeção. Velho Ou, vamos logo, o que você acha?
Foi assim que descobri que o marido dela tinha sobrenome Ou. Ele disse:
— Hm, dá para fazer. Mas, pelo costume, eles produzem mais de noite — é quando tem mais gente no local. Então será hoje, à meia-noite: operação secreta. Vocês cinco vão todos juntos. Não dividam forças. Ataquem primeiro a base do norte, depois a do oeste. Precisa ser rápido. A missão de vocês é só nos traidores — foco em um ponto, sem se distrair com o resto, e eliminação direta. Quanto à destruição dos covis, eu cuido; vou mandar a CWP fazer isso.
Ren Jingze disse:
— Certo, vamos nos preparar então.
Lü Qingyue virou-se para o marido:
— Já que vamos todos, o que fazemos com os três que estão presos? Melhor já eliminar, não é?
O chefe de grupo Ou respondeu:
— Deixem aquele de sobrenome Gu. Os outros dois, entreguem à CWP.
Ren Jingze disse:
— Está bem, já vamos providenciar.
Segui de perto os dois, saindo da casa de Lü Qingyue.
Devem ter achado a região relativamente segura — ou talvez quisessem, de propósito, atrair quem estivesse de vigia. De qualquer jeito, saíram sem se tornar invisíveis.
Depois de saírem, pegaram um táxi, que seguiu para o sul.
Não fui atrás deles.
Achei mais urgente salvar a base dos resistentes.
Assim que os dois partiram, corri até Gu Kunling e contei tudo o que tinha visto e ouvido na casa de Lü Qingyue.
Ela ficou muito assustada e quis organizar na hora a transferência das bases. Pediu que eu continuasse de olho naquele homem de sobrenome Ou.
Mas eu estava mais interessado no que Ren Jingze e os outros iam fazer. Talvez ela quisesse me manter ali só para eu não me arriscar.
Não contei a ela sobre o feitiço de imobilização. Também não falei nada disso a Gu Qiutang. Quanto menos gente soubesse, melhor. Por isso, não tinha muito de que me preocupar.
Ren Jingze e Lü Qingyue estavam organizando um ataque — ir até lá era, sem dúvida, o mais arriscado. Mas Gu Qiutang também estava com eles. Se eu quisesse mesmo tentar salvá-lo agora, seguir Ren Jingze fazia mais sentido.
Expliquei isso a Gu Kunling: seguir Ren Jingze dava mais chance de aproveitar alguma brecha para resgatar o pai dela. Ao ouvir aquilo, ela topou.
Nos separamos. Ela foi salvar os outros. Eu peguei um táxi da mesma empresa que Ren Jingze tinha usado.
Quando ele saiu, tinha reparado de propósito na empresa e na placa do carro. Assim, depois de entrar no meu táxi, pedi ao motorista que entrasse em contato com o motorista do carro da frente, inventando que tinha esquecido minha bolsa lá.
Como eu previa, motoristas da mesma empresa se falavam. Foi fácil arrancar dele que os passageiros do carro anterior tinham descido no Templo Dazhong.
Templo Dazhong?
Um templo, ainda por cima. Aquele lugar eu conhecia bem — templos mantêm contato entre si.
Depois que o motorista me levou até lá, primeiro dei uma volta pelos arredores, usando a percepção por sintonia de frequência e a percepção eletromagnética. Nada de anormal. Fui então direto para o Templo Juesheng.
O nome original do Templo Dazhong era Templo Juesheng, e ele ficava dentro da cidade, a sudeste de Zhongguancun. O abade era um conhecido meu, de sobrenome secular Li e nome monástico Zisheng. Assim que me viu chegar, me recebeu logo no salão interno.
Sentamos, e serviram chá.
Usei a percepção por sintonia de frequência para confirmar que não havia nada de errado com ele. Só então perguntei se, ultimamente — em especial da noite anterior até agora —, havia algo fora do comum acontecendo no templo.
Mestre Zisheng hesitou um instante antes de responder:
— Já que o mestre Xuanhong pergunta assim, não seria certo esconder do senhor. Este assunto, eu nunca tive coragem de comentar com ninguém, com medo de causar pânico. Mas como foi que o senhor soube disso?
Fitei-o e perguntei:
— São objetos voando no ar, ou distorções espaço-temporais?
Zisheng se surpreendeu um pouco:
— O mestre Xuanhong já sabe do assunto? Já tem uma resposta?
Sorri:
— Não é fenômeno exclusivo deste templo. Quando eu era abade no Templo Tansong, também aconteceu. Por isso sei um pouco.
Zisheng perguntou:
— Ah, é? E qual é a causa disso? Por favor, me diga.
Respondi:
— Primeiro me conte quais foram os fenômenos estranhos que aconteceram. Depois nós dois analisamos juntos.
Zisheng juntou as mãos e disse:
— Pois é assim: três meses atrás, começaram a acontecer, de vez em quando, objetos voando no ar e distorções espaço-temporais. Isso causou pânico em alguns poucos monges, que vieram me avisar. Dei um jeito de acalmá-los, disse que era truque de algum ladrão. Mas eu mesmo não entendia bem o que era, e também não me atrevi a comentar com mais gente. Depois organizei uma cerimônia de Dharma fora do pavilhão, e as coisas de fato se acalmaram. Pensei que já estava resolvido. Não esperava que, ontem à noite, por volta das nove, o barulho voltasse, agora com voz de gente. Só que os monges não conseguiam ver ninguém. Hoje de manhã, as vozes voltaram, mais intensas que na noite anterior. Eu já ia organizar de novo os monges para uma pregação do Dharma, e mal tinha passado o recado quando o mestre Xuanhong chegou.
Eu disse:
— Irmão de Dharma, não se apresse em organizar essa cerimônia. Que tal me deixar investigar primeiro este fenômeno estranho? Antes de esclarecer tudo, não me atrevo a dizer nada com certeza. Mas prometo dar uma explicação ao irmão Zisheng. Peço que me leve, agora mesmo, ao lugar onde essas coisas costumam acontecer. Pode ser?
Zisheng assentiu, chamou um jovem monge e mandou avisar a todos que a cerimônia seria adiada.
Depois disso, me levou até os fundos do Pavilhão das Escrituras do Templo Juesheng, apontou para um grande pavilhão e disse:
— É lá que acontecem os fenômenos estranhos. A Grande Torre do Sino, do pavilhão posterior.
Reconheci de imediato: era a construção mais importante do templo, a Grande Torre do Sino.
Dentro dela, pendia um sino enorme, de 46,5 toneladas — o objeto fundacional mais importante do Templo Juesheng.
O templo era chamado de Templo Dazhong justamente por causa daquele Grande Sino Yongle, apelidado de Rei dos Sinos, com setecentos anos de história. Todo ano, ele só era tocado uma vez, na noite da véspera de Ano-Novo.
Por que os Caçadores de Almas escolheriam um lugar desses? E, aliás, quando eu era abade no Templo Tansong, aqueles Humanos de Elite também gostavam de andar pelo pavilhão posterior. Eu não fazia ideia do que eles estavam tramando.
Olhando para a torre imponente, fui formando uma hipótese. Aquele sino enorme, de sete ou oito metros de altura, tinha certo efeito de interferência sobre ondas eletromagnéticas externas. Além disso, o templo era um bem histórico protegido e não ficava aberto ao público — agir ali dentro reduzia bastante a interferência social. Um lugar como aquele, bem no meio da cidade movimentada, era conveniente para ir e vir, e ao mesmo tempo tinha sossego em meio ao movimento. Era um bom lugar.
Pedi a Zisheng que esperasse. Eu entraria sozinho.
Ele já tinha ouvido bastante sobre feitos meus quase miraculosos e, além disso, confiava em mim. Concordou de bom grado.
Afastei-me dele, contornei uma coluna, fiquei invisível na hora e saltei rápido para dentro do pavilhão.
Assim que entrei, vi o sino de bronze pendurado bem no centro do salão, ocupando quase metade do espaço, transmitindo uma pressão quase física.
Ativei a percepção por sintonia de frequência e senti com clareza a presença de gente sob o sino. Com as ondas de visão penetrante, conseguia ver, vagamente, duas figuras de névoa se movendo.
Mas, quando me aproximei, não consegui avançar — era como se houvesse uma parede de ar bloqueando o caminho.
Dei a volta inteira. Parede de ar por todo lado.
Não sabia onde estava a entrada. Como entrar?
Será que aquilo era a barreira espaço-temporal?
Quando eu jogava aqueles jogos de cultivo com Ye Ziping, tinha uma coisa parecida nos jogos. Só que nunca imaginei que existisse de verdade. Não era à toa que Gu Qiutang dizia que a IA tinha realizado todos os sonhos da humanidade. Só que esses sonhos ficavam nas mãos de apenas alguns poucos membros da elite.
Os métodos dos Caçadores de Almas eram, de fato, mais sofisticados que os dos Varredores. Faziam jus ao nome de Humanos de Elite.
Eu nunca tinha estudado aquilo, mas tinha certeza de que uma barreira espaço-temporal não surgiria do nada. Tinha que haver algum mecanismo por trás.
Saltei até a viga principal do pavilhão para procurar. E, de fato, sobre o Pulao do sino, encontrei um dispositivo eletrônico preto-acinzentado.
Subi até perto dele e cutuquei de um lado e de outro, mas não achei nenhum interruptor.
Ainda assim, pelas ondas de visão penetrante, conseguia sentir, vagamente, a forma da barreira dali. Ela não era circular, como nos jogos — era uma área cônica, estreita em cima e larga embaixo, projetada de lá para baixo, a partir daquele dispositivo. O núcleo de energia era justamente aquele dispositivo eletrônico preto-acinzentado.
Parecia uma cúpula de ar, cobrindo com firmeza o espaço sob o sino.
Não sabia o nome verdadeiro daquele dispositivo, então resolvi chamá-lo, por conta própria, de “gerador eletrônico da barreira espaço-temporal”.
Usei a união das duas placas de jade verde, querendo primeiro imobilizar todos os presentes — assim seria mais fácil mexer naquilo.
O tempo foi congelado por mim num instante.
Só que eu jamais imaginei que a suspensão espaço-temporal provocada pela união das duas placas de jade verde não fizesse efeito sobre quem estava dentro da barreira. Eu continuava vendo as figuras lá dentro se movendo.
Então era isso!
Pelo visto, eu tinha subestimado aquela coisa.
