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    Capítulo 38 — Caçadores de Almas

    Ao replicar a cápsula do corpo parasita, descobri uma coisa nova.

    Era o receptor pelo qual o corpo parasita recebia os Caçadores de Almas — e também um dispositivo-base. Era por ali que os Caçadores de Almas deslocavam instantaneamente a consciência para dentro do cérebro do corpo parasita.

    Talvez fosse também um controlador. Só não sabia se era uma versão universal ou uma versão exclusiva. Se fosse exclusiva, não teria muita utilidade.

    Não era à toa que, depois que a Cápsula da Sabedoria foi arrancada, Zhu Zhaojie parou de ser controlada.

    Falando nisso — agora que eu tinha copiado aquela estrutura, será que os Caçadores de Almas não poderiam usar a consciência deles para tomar meu cérebro também?

    Só de pensar nisso, não consegui evitar um calafrio.

    Gu Kunling perguntou o que havia, e eu contei sinceramente o que tinha sentido.

    Ela pensou um pouco e disse:

    — Não deve ser tão fácil assim. Zhu Zhaojie era dos Varredores, e estava sob duplo controle — o software dos Varredores fica totalmente aberto para os Humanos de Elite. Mas você é diferente. O que você tem é uma função replicada. Seu cérebro deve manter o controle sobre essa estrutura, não é? Então você pode desligar quando quiser.

    Eu disse:

    — É verdade. Ela é parte de mim — minha consciência controla totalmente o liga e desliga.

    Gu Kunling disse:

    — Então está bom. Quando sair daqui, não ative isso por enquanto. Espere um tempo e, depois, tente ligar com cuidado, só para ver o efeito. Se sentir que algo está errado, desligue na hora. Talvez isso seja outra arma para descobrir e enfrentar os Caçadores de Almas.

    Assenti.

    Fazia sentido. Se eu conseguia controlar o liga e desliga, do que eu tinha medo?

    De repente, lembrei daquela placa de jade verde. Será que Gu Kunling me entregaria a dela?

    Perguntei:

    — Kunling, para que vocês usam essa placa de jade verde?

    Ela tirou do peito a própria placa. Era idêntica à minha, como eu esperava.

    Gu Kunling sorriu:

    — Sabia que você estava de olho nisso. Pegue. A nossa placa serve para os resistentes verificarem identidade entre si. Sozinha, uma única placa não tem nenhum outro efeito — dizem que, quando várias são unidas, surge algum efeito extraordinário. Quando unida a outra, esta minha placa, ao que dizem, pode levar ao Mundo de Elite. Não tente testar isso de jeito nenhum. Se acabar realmente indo para lá, com a capacidade que você tem hoje, só vai encontrar a morte.

    Peguei a placa e disse:

    — Se eu levar essa, e você precisar dela depois?

    Gu Kunling sorriu:

    — Antes, precisávamos dela para verificar identidade entre nós. Mas já se passaram tantos anos, todos já se conhecem bem demais. Mesmo sem essa placa, dá para verificar por outros meios.

    Fiquei acariciando a placa e disse:

    — Kunling, tenho a sensação de que deveriam existir seis dessas placas, para formar um círculo completo. E cada união teria um efeito diferente. Então, o que aconteceria se as seis fossem unidas de vez?

    Gu Kunling respondeu:

    — Aí você me pegou. Eu nem passei pela experiência de unir duas. Seis… não é fácil reunir todas. Se acontecer, imagino que seria um milagre.

    Quando saí do escritório da empresa, o céu já estava quase escuro.

    No caminho para casa, senti que alguém me seguia, mas não conseguia ver quem era.

    Entrei num banheiro público na beira da rua, fingindo que ia usá-lo, e assim que passei pela porta, ativei a membrana de invisibilidade.

    Era a primeira vez que eu a usava, então fiquei um tanto nervoso.

    Ao sair, quase esbarrei com alguém que entrava naquele instante. Consegui me desviar num salto rápido, evitando uma cena sem jeito.

    Fui até uma lanchonete na esquina e fiquei observando de fora, tentando descobrir quem me seguia.

    A rua estava cheia de gente indo e vindo — não conseguia identificar ninguém suspeito.

    Naquele momento, também não me arrisquei a usar muito a percepção por sintonia de frequência, com medo de provocar uma oscilação de frequência compartilhada. Isso sim seria problema.

    Enquanto eu hesitava, uma figura humana em forma de névoa passou depressa ao meu lado.

    “Uma pessoa invisível?”

    Percebi que muito provavelmente era um Caçador de Almas. Os Varredores não tinham esse tipo de membrana de invisibilidade — Gu Kunling tinha dito que a delas ainda era uma imitação da tecnologia dos Humanos de Elite. Isso significava que eles dominavam aquilo de verdade.

    Comecei a seguir a pessoa invisível.

    Por sorte, com minhas ondas de visão penetrante, uma pessoa invisível não era de fato invisível diante de mim. Eu conseguia ver sua silhueta enevoada.

    Será que essas pessoas também conseguiam me ver?

    Difícil dizer. Só me restava tentar me aproximar e ver se ela reagiria a mim.

    Aquela pessoa invisível era rápida e ágil, e foi direto para a minha casa.

    Segui atrás dela. Até chegar bem diante da minha porta, ela ainda não tinha me percebido.

    Isso mostrava que ela não conseguia me ver — não tinha a mesma capacidade de visão penetrante que eu.

    Mas, se não conseguiam se ver uns aos outros, como coordenavam as ações? Talvez tivessem alguma forma de interligação de consciência.

    Lembrei que Gu Qiutang parecia ter me dito, uma vez, que os Humanos de Elite conseguiam realizar essa interligação de informações de consciência.

    Naquele momento, a pessoa invisível parecia usar percepção por sintonia de frequência para investigar minha casa por dentro. Bloqueei às pressas as micro-ondas elétricas dentro do meu cérebro e fiquei parado logo atrás dela.

    Bloquear as micro-ondas do próprio cérebro era algo que eu tinha ganhado ao replicar a capacidade de envio e recepção de informações do supernúcleo do Departamento Qiankun. Para detectar os movimentos de todo tipo de pessoa na sociedade, o Departamento Qiankun contava principalmente com a detecção das micro-ondas elétricas do corpo humano e do ambiente ao redor. O supernúcleo podia ser ligado — e, claro, também desligado. Era a capacidade mais básica do Departamento de Informações.

    A pessoa ficou ali sondando por um tempo, deve ter percebido que não havia ninguém dentro, e se virou, descendo as escadas.

    Segui-a de perto. Na esquina, do lado de fora do prédio, encontrei, para minha surpresa, outra pessoa invisível dando apoio.

    Ou seja, eram duas pessoas invisíveis se preparando para me pegar naquela noite.

    Depois de se encontrarem, pareciam discutir algo — ou talvez estivessem se comunicando com outros. Pouco depois, viraram-se para a rua principal e correram depressa em direção a Lanqiyuan.

    Fui atrás delas de perto, até entrarem no Edifício Gu.

    Foi então que um alarme disparou no prédio. Mesmo já sendo depois do expediente, ainda havia muita gente fazendo hora extra lá dentro, e todos correram para fora ao ouvir o som.

    Fiquei de olho nas duas pessoas invisíveis, vendo quando entraram no edifício.

    De repente, um aglomerado de figuras enevoadas, sobrepostas umas nas outras, desceu correndo pelas escadas em alta velocidade. As duas que eu seguia avançaram na hora para dar apoio.

    Não consegui distinguir quantas pessoas tinham descido, mas com certeza não era só uma. Somando as duas que eu já seguia, o outro lado devia ter pelo menos quatro pessoas, ou mais.

    O grupo saiu do prédio e foi direto para um carro estacionado na rua.

    Era uma minivan executiva preta. Dentro, dois Varredores — dava para sentir a presença deles.

    Depois que o grupo entrou, o carro deu partida.

    Eu estava quase me agarrando ao veículo para segui-lo, quando ouvi alguém gritar no andar de cima do Edifício Gu — exatamente na direção do escritório de Gu Qiutang. Minha percepção era forte o bastante para localizar o ponto na hora.

    Voltei-me para lá, saltando.

    Ao chegar, encontrei a secretária de Gu Qiutang gritando, e alguns seguranças correndo para o local. A porta do escritório estava escancarada.

    Entrei e vi bastante sangue no chão. A sala estava toda desarrumada, com sinais claros de luta.

    Entrei rapidamente na sala secreta — ela já tinha sido destruída, e a porta também estava aberta.

    Só então pensei que aquele grupo de figuras enevoadas provavelmente tinha sequestrado Gu Qiutang. Se eu estivesse em casa, as duas pessoas invisíveis que me seguiram talvez tivessem tentado o mesmo comigo.

    Os Caçadores de Almas queriam pegar todo mundo de uma vez?

    Saí do escritório, desativei a invisibilidade em segredo, voltando à minha aparência normal, e corri para o andar de baixo. Encontrei o pessoal da Kunyue e telefonei para Gu Kunling.

    Por sorte, ela atendeu — sinal de que estava bem.

    Eu conhecia os métodos de detecção dos Varredores, então não disse nada pelo telefone, só avisei que estava indo. Depois fui até a Kunyue e pedi que me levassem de carro até onde ela estava.

    Gu Kunling, percebendo que algo tinha acontecido, já tinha se escondido na sala secreta.

    Cheguei à empresa, fui direto para lá e contei tudo o que tinha vivido e visto.

    Algo tinha acontecido com Gu Qiutang!

    O problema era que, naquele momento, não tínhamos ideia de para onde o tinham levado.

    Fiquei arrependido de não ter seguido aquele carro — mesmo que não conseguisse salvar Gu Qiutang, ao menos saberia onde ele estava sendo mantido.

    Gu Kunling, ao contrário, me consolou. Disse que todos eles já sabiam que um dia aquilo poderia acontecer. Todos já estavam psicologicamente preparados para morrer, há muito tempo.

    Ao ouvir isso, senti uma admiração enorme pela organização da resistência.

    Aquele era, sem dúvida, um grupo de gente com uma fé inquebrável.

    De repente, lembrei que, quando fui capturado na base dos Varredores, foi Gu Qiutang quem me tirou de lá. Isso mostrava que eles tinham esse tipo de influência. Perguntei a Gu Kunling se poderíamos mobilizar essa mesma força para resgatar o presidente Gu.

    Para minha surpresa, ela me disse que, da última vez, não tinha sido a força deles que me salvara — e sim um telefonema da minha avó.

    Minha avó?

    Tão poderosa assim?

    Eu disse:

    — Então vamos falar com ela agora. Ela com certeza dá um jeito.

    Gu Kunling balançou a cabeça:

    — Impossível. Você é bastante especial — os Varredores, na verdade, não ousam tocar em você. Mas meu pai é diferente. Ele é uma pessoa comum. Nem sua avó consegue salvá-lo.

    O que aquilo queria dizer?

    Minha posição era mais alta que a de Gu Qiutang? O que significava dizer que “nem minha avó consegue salvá-lo”?

    Por que ela podia me salvar, mas não a ele?

    Eu simplesmente não conseguia entender.

    Mas então lembrei daquela lista dos Caçadores de Almas. Ainda me recordava das pessoas que estavam nela. Talvez pudéssemos vigiá-las de perto.

    Gu Kunling pensou por um instante e concordou que fazia sentido. Mandou na hora alguém verificar os movimentos deles.

    Pouco depois, veio a resposta: nenhuma daquelas pessoas estava em seu lugar.

    Isso indicava que a ação daquela noite muito provavelmente tinha sido conduzida por eles mesmos.

    Lembrei que Zhu Zhaojie tinha me dito, uma vez, que aquele lugar pertencia à Quinta Zona. Será que isso significava que só havia aquelas poucas pessoas nessa zona?

    Gu Kunling assentiu:

    — O grosso dos Humanos de Elite não vive por aqui. Os Caçadores de Almas são só os lobos que eles soltam — por isso não são tantos assim. E também não vale a pena tentar exterminá-los: os Humanos de Elite sempre mandam gente nova. Por isso, quando conseguimos aquela lista, não foi para eliminá-los, e sim para que todos os membros centrais da resistência memorizassem esses nomes, ficassem atentos e evitassem cruzar o caminho deles sempre que possível.

    Eu disse:

    — Então mande alguém ficar de olho neles e seguir para onde vão.

    Gu Kunling respondeu:

    — Já tem gente vigiando. Mas quem vigia não tem as habilidades de um Caçador de Almas. Basta ele ficar invisível, e quem está de olho perde o rastro na hora.

    Então era isso — não era à toa que os Caçadores de Almas conduziram toda a operação daquela noite usando invisibilidade. Servia tanto para facilitar a captura quanto para não se exporem.

    Gu Kunling continuou:

    — Hoje você não volta para casa. Já que foi marcado, fica aqui descansando — é mais seguro. E, se tiver notícia, fica mais fácil eu te chamar.

    Talvez só restasse fazer isso mesmo.

    Nota