Capítulo 34 — Uma bagunça só
por NexoNovelCapítulo 34 — Uma bagunça só
Diante da minha pergunta sobre a família, Gu Qiutang claramente não quis responder. Só disse:
— Há coisas que não posso te contar. Espero que você tenha paciência para enfrentar tudo o que vem daqui pra frente. Quando tiver capacidade suficiente, aí sim vai poder vê-las. E, nessa hora, pode perguntar você mesmo.
Perguntei:
— Essa capacidade de que o senhor fala, até que ponto ela precisa chegar? E outra coisa: meus pais realmente morreram?
Gu Qiutang respondeu:
— A capacidade de que falo é, no mínimo, a de conseguir vê-los. Se você não alcançar esse nível, mesmo que eles estejam parados na sua frente, você não vai conseguir enxergá-los.
Não conseguir enxergá-los? Será que meus pais também eram invisíveis? Mas minha avó, que me criou, era uma pessoa normal, não era?
Ah. Só de olhar a expressão de Gu Qiutang já dava para saber que, sobre os assuntos da minha família, ele não pretendia me dizer muito mais.
Deixa. Não ia insistir e forçar a situação.
De qualquer forma, já sabia mais do que conseguia digerir. Eu já não era mais aquele estudante recém-fugido da cidadezinha de Liutan; e, na minha cabeça, os pensamentos de Xuanhong ainda estavam bem vivos.
Perguntei então:
— E agora, o que eu devo fazer?
Gu Qiutang disse:
— Você ainda precisa crescer. Suas capacidades estão longe de ser suficientes. Daqui pra frente, precisa se lapidar mais, aumentar suas capacidades. Só quando estiver forte de verdade é que vai conseguir enfrentar o que está por vir.
Perguntei:
— E como faço pra me lapidar melhor e aumentar minha capacidade mais rápido?
Gu Qiutang respondeu:
— O Grupo Zhuo não foi derrubado por você mesmo? Sugiro que comece por aí. Quero que você participe da nova empresa de investimentos de reestruturação. O templo, no fim das contas, é lugar de paz e sossego. Não fique lá por muito tempo; é tranquilo demais pra você.
Eu disse:
— O senhor quer que eu vá pra área empresarial? Em tecnologia eu até me viro, mas gestão de investimento é área que não entendo nada, e ainda consome tempo demais. Prefiro agir por conta própria.
Gu Qiutang respondeu:
— Agir por conta própria dá satisfação, sim, mas esse tipo de lapidação exige vários ângulos diferentes. Quanto você entende da sociedade? Quanto entende da natureza humana? Tem equipe própria? Tudo isso precisa ser trabalhado.
Respondi:
— Está bem. Vou seguir o que o senhor decidir.
Falei assim de boca, mas, por dentro, ainda estava meio relutante.
Eu tinha acabado de me acostumar com o Templo Tansong.
Gu Qiutang percebeu que, mesmo tendo aceitado a sugestão, eu não estava de fato satisfeito, e então apontou:
— Na verdade, o jeito que você usou pra se vingar do Grupo Zhuo pesou a mão demais. Atingiu gente inocente demais, causou um impacto social enorme demais, deixou tudo uma bagunça só. A raiz do problema não foi culpa sua, é verdade — mas a forma de resolver, essa foi escolha sua. Contra o Grupo Zhuo, dava pra ter feito um golpe preciso, fino, silencioso. Você, não: fez o país inteiro tremer.
Assenti. Ele tinha razão — eu mesmo já tinha percebido isso depois.
Ele continuou:
— Dizem que, no xadrez, é preciso enxergar cinco lances na frente. Quantos você enxergou? Saiu dando uma chuva de golpes sem direção nenhuma — você mesmo ficou satisfeito, mas parou pra pensar em quantos desempregados isso ia gerar? Na confusão que o vazio de mercado ia causar em setores inteiros? Nas consequências de chamar a atenção dos Varredores, principalmente dos Caçadores de Almas?
Aquilo, sim, tocou direto no meu ponto fraco.
Será que eu tinha pensado nisso?
Sinceramente, não muito.
Na hora, só queria acabar com o Grupo Zhuo do jeito mais rápido e mais duro possível.
Quando colei na prova da Escola Secundária de Liutan, também nunca imaginei que aquilo fosse envolver minha avó, muito menos que chamaria a atenção dos Varredores e me forçaria a viver fugindo. Claro, isso tinha a ver com o quanto eu sabia da vida naquela época. Mas agora eu já era outra pessoa.
Aquilo mostrava que eu realmente precisava me lapidar. Precisava entender que muitas reações estão amarradas umas às outras, em cadeia.
Gu Qiutang concluiu:
— Por isso, quero que você ganhe experiência numa empresa: quero que volte ao meio do povo, que sinta de perto o frio e o calor da vida comum. Assim, no futuro, quando você agir, vai dar prioridade ao povo e tomar as pessoas como base. Não pode ser como os Humanos de Elite, flutuando fora do mundo, desfrutando sozinhos de tudo o que é bom. Responsabilidade e consciência são justamente a maior diferença entre os Humanos de Elite e os desertores. Nessa empresa nova, pretendo colocar Gu Kunling no comando, e você vai ser o braço direito dela. Aprenda bastante com ela.
Aquele arranjo me deixou satisfeito. Respondi:
— O senhor tem toda razão em me criticar! Fui precipitado na ação contra o Grupo Zhuo, pensei pouco nas consequências. E, quanto ao novo arranjo, aceito de bom grado.
Ao me ver mais conformado, Gu Qiutang disse:
— Antes de deixar o Templo Tansong, você pode ir conversar um pouco com o pessoal do Grupo Du. Afinal, ele é um veterano do mundo dos negócios, e Xuanhong e Du Xinlang têm uma história bem complicada entre eles. Sua vida pessoal, a gente não vai interferir. Em poucos dias o mercado vai ter movimentos novos. O vazio de negócios que o Grupo Zhuo deixou é também uma grande oportunidade — não é tudo ruim nisso. Quando a hora certa chegar e a reestruturação estiver madura, eu aviso você. Ah, e uma coisa: grave bem a cara e o local de trabalho desses cinco Caçadores de Almas. Eles são os lobos mais perigosos e mais próximos de você. Vai encontrá-los, com certeza — é melhor já ir se preparando.
(…)
Ao sair de lá, de repente me senti muito imaturo, com um longo caminho ainda pela frente, muita coisa ainda para aprender.
No templo, a vida realmente era leve. Eu tinha meu próprio pátio, era respeitado por todos. Diziam que era prática espiritual tranquila, mas, na verdade, eu vivia das oferendas de outras pessoas.
Pensando bem agora, Gu Qiutang tinha razão em me educar assim. Sem pressão, de onde viria a motivação? Ainda bem que ele não me pôs sozinho no comando de tudo. Se fosse assim, eu estaria mesmo perdido.
Ao deixar o Grupo Gu, não voltei direto ao Templo Tansong. Fui de carro até a mansão da família Du.
Já que ia entrar no mundo dos negócios, seguiria a sugestão de Gu Qiutang: ouviria os conselhos de Du Changfeng, conversaria mais sobre questões empresariais.
Quando Du Changfeng soube que eu queria deixar o templo para entrar numa empresa, não conseguiu esconder a alegria. Por mais famoso que fosse o grande mestre Xuan, no fim das contas ele era um monge. Ver sua filha única se casar com um monge não era exatamente fácil de explicar.
Du Xinlang, por sua vez, baixou a cabeça toda tímida. Eu sentia que ela achava que eu estava fazendo aquilo tudo por causa dela.
Não expliquei nada.
De qualquer forma, era um caminho que eu já tinha decidido seguir — pra que falar demais?
Quando chegamos ao assunto de fazer negócios, Du Changfeng parecia disposto a despejar tudo o que sabia: do planejamento estratégico à gestão intermediária, da contabilidade à divisão de tarefas, ele se esforçava para explicar tudo com as palavras mais simples possíveis, e explicava muito bem.
Du Xinlang, de tempos em tempos, soltava uma ou duas frases para aquecer o clima.
Xuanhong, quando trabalhava no Grupo Du, era arquiteto — não entendia nada de gestão ou negócios. Eu, Xuanchen, entendia ainda menos. Por isso, ouvi os ensinamentos dele com toda a atenção. E isso deixou Du Changfeng bastante satisfeito.
Na hora do jantar, com medo de que Du Changfeng pensasse que eu queria assumir o lugar dele, expliquei de propósito que minha família tinha uma relação antiga com o presidente Gu, do Grupo Gu, e que, agora, ao voltar à vida secular, eu estava atendendo a um convite de Gu Qiutang para entrar na empresa de investimentos de reestruturação liderada pelo Grupo Gu.
Du Changfeng ficou imediatamente contrariado. Aquilo era roubar gente dele.
Eu tinha até esquecido que Gu Kunling também era uma mulher bonita.
Du Changfeng argumentou: como é que o Grupo Gu ia se comparar em força com a família Du? Se era pra montar uma empresa nova, deveria ser a família Du a liderar.
Respondi que, já que o Grupo Gu tinha feito o planejamento e me contratado, isso significava que o plano de trabalho já estava amadurecido — a próxima etapa era a execução. E que, no futuro, sempre que eu não entendesse alguma coisa, sem falta viria pedir conselho a ele.
Du Changfeng, claramente, nunca tinha analisado a fundo a formação da nova empresa — era puro desejo de disputar gente. Ao me ouvir falar assim, não teve muito mais o que dizer.
Du Xinlang, ao contrário, demonstrou mais confiança em mim e apoiou minha ida para a nova empresa.
Eu entendia bem o motivo.
Para Du Xinlang, bastava que eu voltasse à vida secular.
Xuanhong ter se refugiado no templo era, sem dúvida, resultado de ela tê-lo encurralado até lá; e ela sempre pensara em como trazê-lo de volta.
(…)
Já tinham se passado mais de quatro meses desde o colapso do Grupo Zhuo, e as ondas de choque continuavam sem se acalmar.
Como o Grupo Zhuo causara um rombo financeiro enorme — praticamente um crime sistemático e planejado —, o impacto no mercado, principalmente nos bancos de investimento, teve um efeito de transmissão muito forte.
Onda após onda, pequenas crises subprime foram sendo disparadas sem parar. Bolhas de ativos fragilizados e produtos financeiros derivativos estouravam um após o outro, espalhando o risco sistêmico para áreas cada vez maiores.
O colapso de ativos mais fracos e a falência de instituições continuavam se espalhando como uma praga.
Como Gu Qiutang tinha previsto, o mercado financeiro ficou, por um tempo, desordenado, fragmentado, caótico — uma bagunça só.
Eu nunca imaginei que a queda de uma única pessoa pudesse arrastar uma empresa; que uma empresa pudesse arrastar um grupo inteiro; e que um grupo empresarial pudesse desencadear uma reação em cadeia envolvendo centenas de outras empresas. Era como uma fileira de dominós — camada por camada, crescendo cada vez mais, até formar um tsunami.
Cada onda de instabilidade atingia todos os elos da cadeia comercial, sem parar.
E tudo aquilo, caramba, tinha sido detonado por mim, em segredo.
O problema é que eu, além de tudo, ainda era monge!
Eu era chamado de monge eminente que alcançara o Dao, admirado por muita gente. Só nesse quesito, eu já não merecia. A prática espiritual não é só uma arte — é também a própria vida.
Por isso, comecei a me questionar: no fundo, eu era Xuanhong, ou era Xuanchen?
No final, tive que admitir: eu era Xuanchen. Xuanhong era só um complemento na minha vida, não o núcleo dela. A experiência de Xuanhong só enriqueceu minha vivência; sua prática espiritual não conseguiu vencer minha impaciência, muito menos controlar meus pensamentos.
No fundo, eu não era monge.
Ao mesmo tempo, recebi um recado de Gu Qiutang, pedindo que eu escolhesse o momento certo para voltar ao grupo e assumir o posto.
Assim, convoquei rapidamente os responsáveis dos Quatro Salões, os oito administradores, o supervisor monástico, o monge de plantão e outros integrantes do Templo Tansong para uma reunião administrativa. Diante de todos, arrependi-me sinceramente perante o Buda e apresentei meu pedido de renúncia ao cargo de abade, para voltar à vida secular.
Todos os monges presentes ficaram estarrecidos.
Porque, aos olhos deles, meu desempenho recente tinha sido extraordinário. Eu não só estabilizara a ordem do templo e eliminara fatores de instabilidade, como também ajudara muita gente doente, ferida, deficiente e fraca — o que elevara enormemente a reputação do Templo Tansong. Todos os dias havia multidões vindo ao templo só para me ver. Havia até autoridades e gente poderosa querendo me oferecer sustento especial.
Mais importante ainda: meus superpoderes tinham um efeito estabilizador sobre o templo. Xuanhong virara abade depois de só dois anos como monge, e isso não se devia inteiramente à sua realização espiritual — o templo tinha muitos monges de prática mais profunda. O que pesou mesmo foi ele ter superpoderes.
Os irmãos de Dharma dos Quatro Salões, em coro, insistiram para que eu ficasse.
Mas eu não podia explicar a eles a razão real por trás daquilo. Só pude dizer que meus vínculos com o mundo secular ainda não tinham se encerrado, que eu me envolvera demais com as coisas mundanas, que me sentia indigno diante do Buda e que seria difícil continuar carregando aquela responsabilidade. Pedi que esperassem até meu vínculo com a prática amadurecer de novo; aí eu voltaria à vida monástica e me reencontraria com todos os irmãos de Dharma.
Vendo que minha decisão de partir estava tomada, os monges do Templo Tansong também não insistiram em me reter.
Fiquei ainda mais alguns dias no templo. Todos estavam relutantes em se despedir.
No dia da partida, escolhi de propósito sair bem de manhã cedo, antes de os fiéis chegarem. Mas os monges já estavam todos esperando no portão desde o amanhecer.
Uni as palmas das mãos e atravessei o portão com passo firme. Todos me seguiram em fila, me acompanhando na despedida.
Os conflitos e as histórias envolvidos nisso, prefiro não detalhar aqui.
Devolvi o certificado monástico, troquei de roupa e vesti trajes comuns. A partir daquele momento, voltei a ser um simples civil. No peito, não sabia se sentia peso ou alívio — havia, sem dúvida, uma certa sensação de perda.
O carro que o Grupo Gu me dera estava estacionado à beira da estrada.
Antes de entrar, uni as palmas mais uma vez para os monges, e não olhei para trás.
Quando passei de carro pelo pequeno pátio daquela base dos Varredores, usei minha consciência de propósito para sentir o ambiente. E, como eu já esperava, incontáveis fluxos de informações dispararam direto na minha direção, tentando me detectar.
Aquilo mostrava que, para eles, eu já estava fichado — sem dúvida, uma pessoa sob vigilância prioritária. Dali pra frente, só me restava viver com cuidado e agir com seriedade.
