Capítulo 28 — Três provações mortais na prisão
por NexoNovelCapítulo 28 — Três provações mortais na prisão
Os policiais não explicaram o motivo. Apenas mostraram a identificação policial e o mandado de detenção.
Os irmãos de Dharma se juntaram do lado de fora do pátio anexo, tentando impedi-los, mas eu os contive.
Eu respeitava a aplicação da lei. Quem não deve, não teme. Ainda assim, entreguei as placas de jade verde ao irmão de Dharma Guanghuai, para que as guardasse por mim, porque sabia que, se eu fosse preso, seria difícil evitar que fossem confiscadas e guardadas. Se alguém descobrisse o segredo delas, seria um problema e tanto.
Primeiro fui levado pelos policiais a uma sala de interrogatório, onde passei por um interrogatório protocolar.
Colaborei bastante. Mas senti, de forma vaga, que havia algo errado. Porque todos os policiais que me interrogavam tinham vindo de Jizhou e falavam com um sotaque bem marcado de Baoding.
Durante o interrogatório, os policiais me mandaram confessar tudo honestamente, por conta própria.
Eu nem sabia que crime tinha cometido. Confessar o quê?
Os policiais também não diziam nada. Só mandavam que eu pensasse por conta própria. Depois vinha um monte de discurso sobre políticas e diretrizes.
Já que eu não sabia de nada, só me restava enrolar.
O caso mais grave em que consegui pensar foi quando Zhu Shaohua me salvou e eu feri alguns policiais controlados por IA. Mas, nesse caso, Gao Minjun tinha assumido a culpa com a própria morte. Além disso, Zhu Shaohua e Gao Minjun já estavam mortos. Não fazia muito sentido a polícia reabrir aquele caso.
Depois percebi que a polícia não perguntou nada sobre isso. Em vez disso, ficou o tempo todo interessada no “verme eletrônico”. De um lado, perguntavam como eu tinha ficado sabendo do “verme eletrônico”; de outro, perguntavam onde eu estava um mês antes.
“Verme eletrônico” era um nome que eu tinha inventado por conta própria. E, um mês antes, eu, por coincidência, estava detido na base da CWP.
Respondi com sinceridade e pedi que fossem verificar.
Não sei se verificaram ou não. De todo modo, depois do interrogatório, não deram sinal nenhum de que iam me soltar. Em vez disso, me trancaram num centro de detenção nos subúrbios ao norte de Pingdu.
O centro de detenção ficava numa montanha afastada, ao norte de Pingdu. Era um pátio pequeno. No centro havia um campo de exercícios, além de dois predinhos e algumas fileiras de casas térreas. Ao redor, muros com cercas elétricas de cinco ou seis metros de altura, e nos seis postos de vigilância havia guardas armados.
Assim que entrei, fui colocado numa cela no fundo, numa das casas térreas, junto com três grandalhões fortes, de rosto oleoso.
Aqueles três grandalhões tinham tatuagens pelo corpo todo, músculos robustos e rostos ferozes. Só de olhar já se via que não eram fáceis de lidar. E, claramente, se conheciam e agiam em perfeita sintonia.
Ao me verem entrar, abriram um sorriso maldoso.
Li nas cabeças deles informações de perigo. Evidentemente tinham sido contratados por alguém para acabar comigo ali dentro.
Por enquanto, eu não conseguia identificar quem era o contratante, nem o motivo de quererem me machucar. Mas, pelo que eu deduzia naquele momento, havia apenas duas possibilidades:
A primeira eram os Varredores. Embora tivessem me soltado, talvez fosse por pressão. Afinal, naquela minha passagem pela base dos Varredores, eu tinha ficado sabendo de segredos demais.
A segunda era a pessoa que planejava assassinar Du Changfeng. Afinal, eu acabara de salvá-lo e descoberto o método usado para tentar matá-lo. Com medo de que o caso viesse à tona, essa pessoa poderia querer agir contra mim.
Eu considerava a segunda hipótese mais provável. Afinal, na base dos Varredores, eu tinha espancado Min Long. Não fazia sentido mandarem três idiotas para lidar comigo.
Mas, se fosse a segunda hipótese, então o pano de fundo desse assassino era assustador. Porque ele era capaz até de mobilizar a polícia para cooperar.
Diante de três sujeitos com cara de criminosos violentos, se fosse o eu de quando chegara a Pingdu, com certeza eu teria me dado muito mal. Naquela época, eu ainda era só um estudante recém-saído ao mundo.
Mas agora? Como eles poderiam saber o que eu tinha vivido oitenta andares abaixo da terra? Diante de uns sujeitos comuns como aqueles, eu nem me dava ao trabalho de olhar direito.
E, de fato, na segunda metade da noite, um deles ficou encarregado de vigiar junto à porta de ferro; os outros dois se aproximaram sorrateiramente da minha cama. Os dois seguravam um cobertor acolchoado, planejando me cobrir com ele para eu não conseguir gritar, e então me dar uma surra.
Eu já tinha visto os pensamentos deles pela percepção por sintonia de frequência, então continuei deitado na cama, com o corpo relaxado, fingindo não saber de nada.
Bem quando o cobertor estava caindo sobre mim, nem me levantei — só chutei de lado, ainda deitado, contra os dois grandalhões. Foi só um chute em cada um, e ambos acertaram exatamente a junta da rótula.
Os dois caíram no chão na hora, chutados por mim, e gritaram de dor. Mas os policiais não vieram na hora.
O sujeito que vigiava a porta ficou apavorado com aquela cena. Ficou parado ali, tremendo, sem ousar se mexer. Eu também não estava com paciência para ele e continuei deitado, sem me levantar.
Na verdade, eu não tinha quebrado as rótulas dos dois — só desloquei as articulações. Esse tipo de dano, que causa dor extrema sem lesão séria, fez com que eles perdessem na hora qualquer vontade de resistir.
Uns cinco, seis minutos depois, três guardas finalmente correram até ali. O sujeito que vigiava a porta parecia ter visto um fantasma e só queria fugir para fora, mas foi contido pelos guardas.
Só então me sentei na cama, apontei para o vigia e disse:
— Podem perguntar a ele o que aconteceu. Os três se juntaram para me atacar.
Os guardas provavelmente ficaram curiosos com o fato de os feridos serem justamente aqueles dois. Fizeram algumas perguntas rápidas sobre o ocorrido e, junto com o vigia, carregaram os dois feridos para fora. Deixaram-me sozinho, ainda trancado na cela.
Melhor assim, sozinho. Podia dormir em paz.
No dia seguinte: comida, exercício, sono. Nenhum guarda apareceu para me interrogar.
Assim se passaram quatro dias, até que finalmente alguém veio me visitar.
Era Du Xinlang, acompanhada de um advogado.
Assim que me viu, Du Xinlang começou a chorar, tomada de tanta indignação que não conseguia falar. O advogado, que a princípio queria me fazer perguntas, teve que consolá-la primeiro.
Só depois que Du Xinlang passou aquele momento de emoção é que fiquei sabendo da verdade pela boca do advogado.
Acontece que alguém tinha denunciado à polícia, suspeitando de que eu tivesse colocado o “verme eletrônico” no presidente Du. A base da suspeita era que “verme eletrônico” era um nome ultrassecreto, conhecido só por um número mínimo de instituições especiais. Como eu tinha ficado sabendo disso? E, mais ainda, como eu tinha um jeito de neutralizá-lo?
O advogado me mostrou alguns documentos ultrassecretos, todos falando sobre o “verme eletrônico”.
Só então descobri que aquilo era uma ferramenta de assassinato feita especialmente por uma agência de espionagem de um certo país ocidental. Uma pessoa comum simplesmente não teria acesso àquilo. A própria polícia também não sabia. Foi por causa das informações fornecidas pelo denunciante que passaram a tratar o caso como algo gravíssimo.
Expliquei ao advogado que, na primeira noite em que cheguei, alguém tinha tentado me atacar. Isso mostrava que alguém tinha muito medo de que a verdade viesse à tona e queria calar a testemunha para sempre. E que essas pessoas tinham capacidade de interferir na polícia.
Virei-me então para Du Xinlang e perguntei se, depois da cirurgia, a família Du tinha conseguido ficar com o “verme eletrônico” retirado.
Du Xinlang disse que, pouco depois de eu ir embora, chegaram policiais junto com a equipe médica ao local, e, assim que a cirurgia terminou, levaram o “verme eletrônico” na primeira oportunidade.
Como Du Xinlang ficou o tempo todo ao lado do pai, só soube do que tinha acontecido comigo quando Du Changfeng recebeu alta e voltou para casa.
Perguntei ao advogado se tinham verificado as câmeras do hospital.
O advogado me disse que as gravações já tinham sido levadas pela polícia. Mesmo que não tivessem sido, só poderíamos consultá-las por meio da própria polícia.
Perguntei outra vez:
— Então, durante a cirurgia, nós mesmos não fizemos gravação nenhuma?
O advogado ficou enrolando, dizendo que sim e depois que não.
Perguntei se tinham gravado ou não, de verdade.
Por fim, ele disse que sim, tinham gravado, mas que, com a morte do mordomo, o vídeo também tinha desaparecido.
O mordomo morreu?
Du Xinlang disse que o mordomo, ao voltar do hospital, tinha se envenenado por conta própria. A polícia agora também estava investigando isso.
De repente, tive a sensação de que talvez tivesse caído, sem querer, numa armadilha preparada por outra pessoa. Se estavam agindo contra mim, era bem provável que soubessem que eu tinha a capacidade de desvendar a conspiração deles.
Além disso, se o alvo final era Du Changfeng, então o presidente Du ainda não estava fora de perigo. Por isso, disse ao advogado e a Du Xinlang:
— Voltem e reforcem a proteção do presidente Du. Investiguem o que está acontecendo dentro do grupo e quais são os grandes projetos recentes da empresa.
Já que o caso envolvia um “verme eletrônico” vindo do exterior e ainda conseguia se infiltrar na polícia, eu achava que o outro lado tinha uma força muito grande por trás.
O advogado registrou meu depoimento em gravação legal e apresentou ao centro de detenção um pedido de residência vigiada fora da prisão.
Para mim, tanto fazia. Ali dentro, a menos que mandassem algum especialista, gente comum certamente não era páreo para mim. Além disso, se alguém queria me machucar, do lado de fora também haveria novos meios de fazer isso. Na prisão, pelo contrário, havia certas regras institucionais — era até mais seguro.
E, de fato, o pedido do advogado foi recusado bem rápido. Du Xinlang, mesmo sem querer ir, acabou se deixando convencer por mim a voltar. Disse a ela que agora eu tinha capacidade de me proteger, e que o melhor seria ela voltar ao grupo, convocar uma reunião do conselho e discutir se havia algum problema nos projetos recentes.
Mais dois dias se passaram. Então puseram na minha cela uma pessoa fora do comum.
Era um homem idoso, baixinho e muito magro. Dizia ser um quadro do Estado, injustamente acusado de corrupção, e se dizia terrivelmente injustiçado, procurando um jeito de recorrer.
Ativei a percepção por sintonia de frequência e não encontrei ameaça alguma. Então comecei a conversar com ele. Mas suas palavras traziam pouca substância: eram sempre as mesmas queixas vazias de injustiça, quase nunca falava sobre sua unidade de trabalho ou sobre o próprio caso.
À noite, vi que ele dormia tranquilo e não o incomodei. Fiquei sentado na cama, meditando.
Bem quando pensei que fosse conseguir passar aquela noite em segurança, percebi que havia algo errado.
A percepção por sintonia de frequência mostrava que todas as pulsações do velho seguiam um ritmo perfeito demais. Aquilo não estava certo. Os impulsos microelétricos do corpo de uma pessoa normal não são uniformes. Afinal, entre os nervos, as ondas microelétricas variam entre fortes e fracas, próximas e distantes; o pulso também tem pressão sistólica e diastólica. Não havia como tudo estar em perfeita uniformidade.
De repente, entendi: aquele homem talvez fosse um ser de IA completamente modificado. Mesmo a Cápsula da Sabedoria dos Varredores era só uma versão de reforço da IA dentro do corpo humano; as funções normais do corpo ainda continuavam ali.
Ao pensar nisso, suei frio da cabeça aos pés. Eu tinha sido descuidado demais.
Já tinha visto, nos arquivos dos Varredores, registros sobre seres de IA completamente modificados, mas nunca encontrara um de verdade. Embora ainda tivessem corpo de carne humana, o sistema eletrônico inteligente de IA já estava totalmente fundido a ele. Muitos tecidos e órgãos humanos já tinham se transformado em partes eletrônicas mecanizadas. Eram uma espécie de semirrobô.
Na verdade, nessa passagem pela prisão, passei, no total, por três provações de vida ou morte.
Todas elas só foram superadas por conta do meu alerta prévio. Se eu não tivesse essa capacidade de perceber com antecedência, em cada uma dessas provações teria sido muito difícil sair vivo da prisão.
Naquele momento, eu realmente não conseguia entender quem queria a minha morte.
Mesmo quando estive na base subterrânea dos Varredores, eles não quiseram me matar.
E, de fato, ao amanhecer, quando o céu já começava a clarear, o velho avançou de repente contra mim como um fantasma, num golpe de estocada. Por sorte, eu já estava preparado. Saltei com força e arremessei contra ele o cobertor da cama.
Não fiz isso para machucá-lo, mas para atrasar seus movimentos.
Os movimentos do velho eram rápidos demais — rápidos a ponto de eu quase não conseguir reagir.
