Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 27 — O verme eletrônico

    Ao me ver vestido com o manto monástico, Du Changfeng se preparou para me saudar à maneira budista, mas eu o impedi. Afinal, nossas posições eram diferentes; se ele fizesse uma saudação budista, minha posição ficaria no mesmo nível da dele. Depois que Xuanhong entrou para a vida monástica, já era venerado como mestre e abade.

    Então fui eu quem o saudou primeiro, como alguém da geração mais nova, e lhe fiz cumprimentos. Isso deixou Du Changfeng bastante satisfeito.

    Du Xinlang, feito uma filhinha obediente, ficou encostada ao lado do pai. Ao mesmo tempo em que mandava alguém servir creme de ninho de andorinha, massageava as costas dele.

    Depois que todos terminaram as cortesias, fiz sinal para Du Changfeng estender o braço. Eu queria tomar seu pulso.

    Du Changfeng evidentemente já tinha ouvido dizer que Xuanhong sabia diagnosticar doenças. Mas, afinal, Xuanhong não tinha formação médica; tomar pulso e fazer diagnóstico, para o presidente Du, não passava de um método menor. Ele tinha médico particular próprio e acreditava na medicina ocidental. Mesmo assim, por consideração, estendeu o braço.

    Apoiei os dedos de leve em seu pulso. Senti que o pulso era irregular e fraco. Depois de um instante, perguntei:

    — Presidente, o senhor costuma sentir tontura, dormência nos membros e esquecimentos?

    Du Changfeng respondeu na hora:

    — Sim. Você também percebeu isso? No mês passado fui ao Hospital de Pingdu, fiz uma bateria completa de exames, e o médico disse que eu tinha uma obstrução cerebral leve. Estou tomando remédio para dissolver isso.

    Balancei a cabeça de leve e disse a Du Changfeng e Du Xinlang:

    — Os sintomas do presidente realmente se parecem muito com obstrução cerebral. Mas remédio não vai resolver.

    Du Xinlang perguntou na mesma hora:

    — Por quê? Para esse tipo de obstrução cerebral, hoje em dia não existem medicamentos trombolíticos específicos?

    Eu disse:

    — Trombolíticos tratam coágulos comuns. Mas essa obstrução nos vasos cerebrais do presidente, do jeito que percebo, parece… artificial.

    A expressão de Du Changfeng ficou séria na mesma hora. Ele me olhou com muita surpresa. Eu sabia que ele não estava totalmente convencido.

    Então tive que explicar:

    — Presidente, consigo perceber que, nos vasos sanguíneos do lobo frontal esquerdo do seu cérebro, há uma pulsação extremamente regular. Só que essa pulsação não vem da artéria — vem de um corpo estranho dentro do vaso. Esse tipo de sinal microelétrico… por favor, acredite em mim, minha capacidade de percepção é extremamente forte. Ele não só pulsa, como também se move devagar. Se entrar em regiões mais profundas, vai afetar linguagem e consciência, e depois audição, movimentos e memória.

    Depois de ouvir tudo, Du Changfeng ainda tinha dúvidas sobre o que eu dizia, mas, como o assunto era grave, ligou para seu médico particular e mandou que viesse imediatamente.

    Eu, então, disse baixinho a Du Xinlang:

    — Esse médico particular, é confiável? Não teria sido comprado, teria?

    Du Changfeng pareceu ouvir o que eu disse e respondeu:

    — O Qi me acompanha há vinte anos. Acho que não.

    Cerca de meia hora depois, entrou um senhor idoso, de aparência ainda vigorosa, carregando uma maleta médica.

    Depois que todos se sentaram, contei ao idoso o que eu tinha descoberto. Desconfiado, ele examinou Du Changfeng outra vez, com muito cuidado. Depois me disse em voz baixa:

    — De fato, há algo um pouco errado. Mas esse êmbolo é extremamente pequeno e está dentro do crânio. Só com ressonância magnética e angiografia vascular profissionais será possível ver com clareza o estado atual.

    Assenti, sem dizer mais nada.

    Na verdade, eu sentia que talvez conseguisse, só com minha intenção mental, fazer aquele microêmbolo recuar. Isso porque conseguia perceber sua estrutura inteligente. Não sabia como se chamava aquela microentidade inteligente, mas, se fosse para eu dar um nome, chamaria de “verme eletrônico”. Porque sua função parecia ter sido projetada justamente para obstruir vasos sanguíneos, só que as ondas microelétricas daquela coisa eram um pouco parecidas com as do cérebro humano. Esse também era o motivo de eu julgá-la uma entidade inteligente.

    Qualquer entidade inteligente, no fundo, é uma forma de biomimética eletrônica. É uma forma de vida. E, sendo uma forma de vida, se havia um jeito de entrar, também devia haver um jeito de sair pelo mesmo caminho.

    Só que Du Changfeng era uma pessoa de status elevado, e além disso acreditava na medicina moderna. Naquele momento, não era adequado eu agir.

    O doutor Qi e o mordomo foram cuidar dos assuntos médicos de Du Changfeng. Eu saí para caminhar pelo jardim com Du Xinlang.

    Primeiro acalmei o pânico de Du Xinlang. Só depois perguntei, baixinho:

    — O Grupo Du teve algum movimento importante nos negócios ultimamente?

    Du Xinlang respondeu:

    — Você quer saber quem seria diretamente afetado se algo acontecesse com meu pai, não é? Esse ângulo é difícil de analisar. Concorrentes, parceiros, segredos comerciais… há muitos conflitos e segredos que ninguém conhece. Na verdade, não consigo imaginar meu pai tendo inimigos. Ele sempre foi muito discreto, nunca provocou ninguém.

    Eu a consolei:

    — Você tem razão. Na verdade, também não precisa analisar agora. Quem recorre a métodos sombrios desse tipo, no fim das contas, segue um caminho menor. Daqui a alguns dias, quando saírem os resultados dos exames do seu pai, eu vou com você ao hospital.

    Ao ouvir isso, Du Xinlang se encostou em mim com uma expressão de felicidade no rosto.

    No dia seguinte, Du Changfeng foi internado no Hospital de Pingdu para uma nova avaliação.

    Por volta do quarto dia, o hospital chamou Du Xinlang para conversar. Consideravam necessária uma cirurgia craniana. Segundo a junta de especialistas, aquele êmbolo já tinha se deslocado para uma posição perigosa e, de fato, não mostrava nenhum sinal de dissolução.

    Abrir o crânio era uma cirurgia de grande porte, de risco altíssimo. O Hospital de Pingdu informou que a taxa de sucesso era de apenas quarenta por cento.

    Quarenta por cento? Uma chance de sobrevivência inferior à metade. Não só Du Xinlang ficou apavorada, como os executivos e acionistas da empresa que correram para visitá-lo também ficaram extremamente preocupados. Por um instante, todos ficaram sem saber o que fazer.

    Muitos parceiros comerciais da empresa, ao saberem da notícia, também vinham visitá-lo sem parar. Pelo visto, o destino de Du Changfeng não dizia respeito só a ele; envolvia também o destino de todo o grupo.

    Foi então que fui, sozinho, até o consultório da médica responsável. Pedi as imagens de ressonância e os dados da angiografia para comparar com minha hipótese. Por fim, sugeri à médica responsável que me deixasse tentar algo com a intenção mental.

    A médica responsável se chamava Yan. Ela me olhou incrédula, como quem olha para um golpista. Se eu não tivesse sido levado ali pessoalmente por Du Xinlang, e se nossa relação não fosse próxima, ela com certeza teria me expulsado dali.

    Não quis me explicar demais. Só disse à doutora Yan que meu método não tocaria no paciente, muito menos agravaria seu quadro. Mesmo que eu não conseguisse, isso jamais afetaria a cirurgia dela.

    No entanto, a doutora Yan disse que, afinal, o Hospital de Pingdu era um dos maiores hospitais modernos da cidade de Pingdu, e médicos de fora do hospital não podiam realizar tratamento ali. Era uma questão de divisão de responsabilidade.

    Eu conseguia entender isso.

    Por isso, disse que então eu iria apenas como parente ou amigo do paciente, em visita, e esperava que ela me desse alguma ajuda médica. Isso devia ser possível, não?

    Vendo que a doutora Yan continuava reticente, alguns acionistas do grupo, que tinham certa relação com a diretoria do hospital, entraram em ação. Eles também sabiam que Xuanhong já tinha precedentes de assistência médica bem-sucedida, então entraram em contato na hora com a diretoria do hospital.

    Cerca de um dia depois, o hospital finalmente aceitou minha proposta. Mas exigiu que a médica responsável estivesse presente e tivesse autoridade para interromper qualquer atitude inadequada minha a qualquer momento.

    Na verdade, aos olhos dos médicos, desde que eu não tocasse no paciente nem interferisse na área da lesão, qualquer intenção mental ou percepção não afetaria nem o paciente nem o tratamento em si.

    Por fim, depois de ouvir a opinião de Du Xinlang, concordaram em me deixar tentar.

    Naquele dia, fiz Du Changfeng se deitar na mesa cirúrgica. Com exceção da doutora Yan, pedi que os demais médicos e funcionários se retirassem para a sala externa e acompanhassem, pela tela, a evolução do movimento do êmbolo nas imagens da angiografia vascular.

    Eu me sentei diante da mesa cirúrgica, apoiei a mão de leve sobre o lobo frontal de Du Changfeng, coloquei minha intenção mental em sintonia e fui, pouco a pouco, penetrando naquele minúsculo “verme eletrônico”.

    Dentro da minha intenção mental, era como se eu mesmo fosse o corpo daquele “verme eletrônico”. Então comecei a me empurrar para fora, um pouquinho de cada vez.

    — Está se movendo de verdade.

    Ouvi alguém falando. Mas eu não tinha atenção para mais nada.

    — Conseguiu mesmo. Recuou bastante.

    As pessoas comentavam sem parar.

    Fiquei totalmente concentrado e levei quase uma hora até, coberto de suor, mover o “verme eletrônico” até a parte posterior do pescoço. Aquela posição já não ficava mais dentro do crânio. Uma pequena cirurgia minimamente invasiva na nuca já bastaria para retirá-lo.

    Durante todo o processo, a doutora Yan ficou ao meu lado, observando-me com total atenção, e de vez em quando olhava também as imagens nos equipamentos médicos.

    Embora não entendesse como eu tinha feito aquilo, as imagens eletrônicas dos aparelhos médicos não mentiam.

    Quando saí da sala cirúrgica enxugando o suor, a porta estava tomada por médicos e gente da empresa. Todos tinham vindo correndo ao saber da notícia e me olhavam com um misto de estranheza e reverência.

    Eu e a doutora Yan fomos até a sala de observação. Um bando de médicos curiosos também entrou atrás. Apontei para a imagem da angiografia no equipamento médico e disse à doutora Yan:

    — Vejam. O verme eletrônico já se moveu até aqui. Se descer mais, vai entrar no canal vertebral. Por isso só consegui trazê-lo até este ponto, onde a cirurgia fica mais conveniente. Uma pequena incisão cirúrgica deve bastar para retirá-lo, certo?

    A doutora Yan comentou, cheia de admiração:

    — Esta posição é excelente, não tem dificuldade nenhuma. Já posso providenciar a cirurgia daqui a pouco. Mas o senhor disse agora há pouco que essa coisa se chama verme eletrônico?

    Eu disse:

    — Foi um nome que eu mesmo inventei. O nome verdadeiro, eu não sei qual é. Achei que “verme eletrônico” ficava mais fácil de entender. Essa coisa deve ser artificial. Doutora Yan, durante a cirurgia, peço que me deixe providenciar alguém para filmar e registrar como prova.

    Depois disso, chamei o mordomo de novo e pedi que ele arranjasse alguém para se comunicar com a doutora Yan. A coisa retirada precisava, de qualquer forma, ser trazida de volta para mim.

    Du Xinlang, emocionada, me abraçou pela cintura por trás e começou a chorar ali mesmo, na frente de todos. Já os acionistas e altos executivos do grupo saíram espalhando a notícia por toda parte.

    Depois que essas pessoas divulgaram o que tinha acontecido, minha fama se espalhou rápido. Por um tempo, passei a ser tratado como uma espécie de ser milagroso.

    Depois disso, não me envolvi mais nos assuntos do hospital. Deixei o mordomo cuidar do resto e voltei direto ao Templo Tansong, sem acompanhar mais o caso. Confiava que a família Du saberia resolver tudo.

    No entanto, o que eu jamais esperava foi que, cerca de três dias depois, a família Du não me trouxesse o “verme eletrônico”. Em vez disso, chegou um grupo de policiais para me prender e me levar.

    Nota