Novels chinesas em português
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    Capítulo 25 — O mundo escondido no templo

    O monge milagroso ajoelhou-se e pediu perdão.

    Acontece que ele tinha sido discípulo do mestre Xingguang, do Templo Foying, na ilha Tai. Por não obedecer às regras monásticas, fora expulso da linhagem pelo mestre Xingguang e viera para o continente aplicar seus golpes. A pessoa invisível era seu irmão gêmeo.

    Mandei que tirasse o dispositivo de invisibilidade. No fim das contas, era um traje flexível de invisibilidade por IA. Ele disse que tinha comprado por uma fortuna. A pessoa que vendera o equipamento, segundo ele, também era invisível — não conseguia descrever a aparência. Só disse que o contato fora feito pela internet, e a transação, presencial.

    Quanto às coisas estranhas do templo, ele disse não ter nenhuma relação com elas. Já aconteciam antes de sua chegada. Aliás, ele mesmo já tinha visto objetos se moverem suspensos no ar, e foi justamente aí que pensou em usar aquilo como truque para ganhar dinheiro. Escolhera aquele lugar por dois motivos: primeiro, porque o Templo Tansong tinha muita gente; segundo, porque era famoso.

    Depois de expulsar o monge itinerante golpista, mandei que os administradores afixassem um aviso explicando o truque do falso monge: este templo age de forma justa e transparente, serve o mundo humano, e não pratica caminhos tortuosos.

    Em segredo, pedi ao irmão de Dharma Guanghuai que reunisse informações sobre os acontecimentos estranhos, para que eu pudesse estudá-las com cuidado.

    Depois de examinar o material, descobri que as coisas estranhas do templo aconteciam, na maioria das vezes, numa faixa junto à montanha, perto do Pavilhão Guanyin, do Pavilhão Pilu, do Lago Dabei e do Pavilhão Caishen.

    Primeiro, avisei ao mestre Guanghuai que, por ora, não realizasse cerimônias nem recitações de sutras nesses pavilhões. Eu queria esvaziar aquele ambiente e deixá-lo tranquilo. Depois, passei a frequentar aqueles lugares com regularidade — ora meditando, ora fazendo minha refeição, ora estudando.

    Depois de uma semana de observação e percepção por sintonia de frequência, finalmente senti algo que me deixou chocado.

    Nos três primeiros dias, nada aconteceu.

    No quarto dia, no Pavilhão Guanyin, percebi pessoas entrando e saindo, mas não conseguia vê-las. Continuei meditando como sempre, sem dar atenção.

    No quinto dia, várias pessoas entraram e saíram do Pavilhão Pilu. Eu não as via, mas sentia que se moviam. Ainda assim, não dei atenção.

    No sexto dia, percebi que algumas delas se comunicavam por pensamento. Isso mesmo — não por fala, mas trocando informações por intenção mental. Chegaram até a falar de mim. Mesmo assim, não dei atenção. Eu só queria que se acostumassem com minha presença.

    No sétimo dia, senti com clareza: alguém estava parado diante de mim, como que me observando, e se comunicava com outra pessoa no vazio. Diziam que eu era um pouco estranho, que queriam me observar melhor.

    Eu não sabia o que tinha de estranho em mim.

    Mas senti que o momento estava mais ou menos maduro. Então, de repente, disparei uma fileira de pregos de ferro contra a pessoa mais próxima de mim — daqueles pregos grandes de carpinteiro. Quis deixar o golpe bem evidente.

    — Olha só, ele ainda quer bater na gente.

    — Esse pequenino é até engraçadinho.

    — Não dá bola pra ele, cuida do seu trabalho.

    — Entendido.

    Bang, bang, bang —

    Numa sequência de estalos, todos os pregos que lancei foram se cravar na parede do outro lado.

    Continuei disparando pregos em direções diferentes. Onde eu sentia alguém, atirava; e onde imaginava que poderiam se esquivar, também atirava.

    Bang, bang, bang —

    Com os mesmos estalos, todos os pregos foram se cravar na parede.

    Fiquei olhando para aqueles pregos, decepcionado, achando tudo difícil de engolir. Aquelas pessoas que conversavam no ar e entravam e saíam dos pavilhões não eram pessoas invisíveis, de jeito nenhum. Não tinham forma, não tinham som, mas tinham pensamento e se comunicavam. Enfim, pareciam um grupo de almas sem corpo físico.

    Seria isso mesmo? Eu não tinha certeza.

    Se não fosse, então o que seriam?

    Embora eu vivesse dentro do budismo e entendesse o ciclo dos seis reinos, jamais acreditaria que os seis reinos pudessem se comunicar entre si. O reino celestial, o reino humano, o reino dos asuras, o reino infernal, o reino dos fantasmas famintos, o reino animal — cada reino com seu próprio carma, todos diferentes.

    — Ele ainda insiste. Vamos provocá-lo um pouco.

    — Zhang Xiao, você não consegue ficar quieto, não é?

    Eu sentia o desprezo deles, como se eu não tivesse a menor importância. E, ainda por cima, eles tinham nomes! Se fossem dos seis reinos, seria impossível usar nomes humanos. Só no reino humano se usam nomes de gente!

    Seriam humanos?

    Achei que talvez fosse algo que eu ainda não conhecia.

    — Du, du, uá —

    — Psss, psss, alguém venha aqui. Traz aquilo, psss, pra cá. Psss, abre a porta.

    — Zhao Xirui, o que houve do seu lado? Du, a chefe da câmara mandou você abrir logo a barreira espaço-temporal, psss —

    Estava tudo meio confuso. Mas consegui captar uma expressão: eles falaram em “barreira espaço-temporal”.

    Barreira?

    Será que aquele tal “muro de fantasma” era, na verdade, causado por uma “barreira espaço-temporal”? Eu já tinha visto uma menção rápida disso nos arquivos dos Varredores — parecia ser uma espécie de fronteira usada entre espaços-tempos diferentes. Mas os arquivos deles não traziam muito detalhe; só mencionavam de passagem, ao tratar de outro assunto.

    Se essas pessoas conseguiam abrir uma barreira espaço-temporal, será que o fenômeno de congelamento do tempo criado pela união das minhas placas de jade verde também tinha relação com elas?

    Segui esse raciocínio e pensei em várias coisas. Tive a sensação de ter descoberto um campo inteiramente novo. Aquele templo escondia, de fato, um outro mundo!

    Continuei seguindo, devagar, a linha que conseguia perceber — do Pavilhão Guanyin ao Pavilhão Pilu, do Pavilhão Caishen ao Lago Dabei. Parecia formar uma linha. Ou melhor: um caminho que eu não conseguia ver.

    Meu Deus, o que era, afinal, aquilo que eu estava percebendo?!

    Seria um novo mundo qiankun? Por que apareceria justamente no Templo Tansong? Talvez existisse em outros lugares também, e eu simplesmente ainda não tivesse investigado o suficiente.

    Bem quando eu avançava devagar pela linha que conseguia sentir, de repente, uma mão gelada bateu “pá” na minha testa. Levei um susto e tanto.

    Quem foi?

    Tateei para a frente. Não havia ninguém.

    — Pequenino, volta logo. Não continue nos seguindo. Senão, talvez você nunca mais consiga voltar — disse uma voz.

    Era comigo? Olhei para os lados e não vi mais ninguém.

    — Sênior, a senhora está falando comigo? E esse lugar de onde eu não conseguiria voltar, onde é? — perguntei, dirigindo-me ao vazio de onde vinha a voz.

    — Tsc, que história é essa de sênior? Eu ainda sou uma garotinha, sabia? Rá, rá, rá.

    De fato, a voz ficou bem mais clara e leve.

    Até agora há pouco fingia ser profunda, e num segundo virou uma pestinha travessa.

    Perguntei:

    — Garotinha, então vocês são o quê? Por que eu não consigo ver vocês?

    — Claro que você não consegue ver. Se gente comum como vocês conseguisse nos ver, que tipo de Humanos de Elite a gente seria? — respondeu a voz, com um tom de gozação.

    Humanos de Elite?

    Lembrei que minha avó um dia me disse que, no futuro, eu enfrentaria os Varredores, os Humanos de Elite e algum outro sistema organizacional. Será que eram esses? Um tipo de pessoa-alma, invisível?

    — Vocês, Humanos de Elite, são pessoas-alma? Parece que não têm corpo — perguntei.

    — Sem corpo é você! A sua família inteira é que não tem corpo! — A garotinha parecia irritada.

    — Então por que não consigo ver você, nem tocar em você? — perguntei.

    — Ainda quer me tocar? Vamos ver se você tem coragem de me faltar com respeito de novo!

    No mesmo instante, minha testa recebeu outro tapa: “pá”.

    Não doeu.

    O dano era mínimo, a humilhação, enorme.

    Mas eu não estava nem aí. Que se dane.

    — Acho você bem interessante, garotinha. Que tal a gente ser amigo? — perguntei.

    — Quem vai querer ser amigo de você? Vocês são todos um bando de gente inferior de baixo QI. Como poderiam merecer nossa amizade? — respondeu a voz.

    Ah, então elas se consideravam Humanos de Elite de QI alto, tinham corpo, conseguiam nos afetar — ela já tinha me batido duas vezes, afinal —, enquanto a gente não conseguia afetá-las de volta. Não queriam se misturar com gente inferior, e ainda havia hierarquia de idade entre elas.

    — Xiaoli, com quem você está falando? Vamos, anda logo — chegou outra voz.

    — Espera só um pouco! — gritei, apressado.

    Depois de finalmente encontrar alguém que reagisse a mim, eu não queria deixá-la escapar assim.

    — Não continue nos seguindo. Você é o monge daqui? Como você descobriu a nossa presença?

    De repente, uma voz feminina, com jeito de mais idade, chegou aos meus ouvidos.

    Juntei as mãos na hora diante do peito e respondi:

    — Saudações. Este humilde monge tem o nome monástico Xuanchen, e é o abade deste templo. Não tinha nenhuma intenção de perturbar a tranquilidade dos Humanos de Elite. É que, nos últimos dias, alguns monges do templo foram afetados pela barreira espaço-temporal e pensaram que tinham entrado num muro de fantasma. Por isso vim investigar, tentando esclarecer a causa.

    — Você sabe até sobre barreira espaço-temporal? — perguntou aquela voz.

    — Não sei nada, não. Só ouvi alguém mencionar isso, por acaso, e falei sem querer — tive que admitir a verdade.

    — Então, como foi que você descobriu a nossa presença? — perguntou a voz.

    Não ia deixar que ela ficasse com minha informação de bandeja. Então respondi:

    — Podemos fazer uma troca? Eu conto o motivo, e a senhora me diz que tipo de existência são os Humanos de Elite.

    — Sonhando.

    Aquela voz tinha um tom claro de superioridade, e continuou:

    — Não passa de percepção por sintonia de frequência. Como se a gente não tivesse também.

    — Vocês também têm?

    Fiquei um tanto surpreso. Então aquilo que eu considerava um superpoder, aos olhos dos Humanos de Elite, não passava de uma habilidade comum.

    — Pronto. Pare de tentar bisbilhotar a nossa vida. A gente também não vai mais incomodar vocês. Mas, já que você sabe que somos Humanos de Elite, deveria saber qual é o lugar de cada um. Quanto à barreira espaço-temporal, vou mandar que mudem de lugar. Mas você parece meio estranho. Por que sua percepção por sintonia de frequência não tem Cápsula da Sabedoria instalada? Como você conseguiu isso?

    Aquela voz ficou curiosa. Mas como ela tinha percebido se eu tinha ou não uma Cápsula da Sabedoria instalada? E, pelo jeito que falava, a percepção por sintonia de frequência que elas tinham dependia justamente da instalação de Cápsulas da Sabedoria.

    Então eu disse:

    — Se a senhora quer saber, também dá pra trocar por informação. Eu conto o motivo, e a senhora me diz que tipo de existência são os Humanos de Elite.

    Eu realmente queria saber o que eram os Humanos de Elite. Afinal, minha avó tinha me avisado para ter cuidado com eles.

    — Deixa. Com esse pouquinho de habilidade que você tem, ainda não dá. Quando tiver qualificação, volte pra perguntar.

    Depois de dizer isso, a voz se afastou.

    Que falta de educação, francamente.

    Foi embora sem nem se despedir.

    Nota