Capítulo 10 — Fuga (1)
por NexoNovelCapítulo 10 — Fuga (1)
Na minha cabeça, eu conseguia sentir que Zhu Zhaojie acompanhava, ansiosa, qualquer movimento do meu lado. Estava com o ouvido colado na parede, tentando escutar os sons que vinham daqui.
Se eu contasse a partir do dia em que o pai dela registrou o desaparecimento, Zhu Zhaojie estava presa ali fazia um mês e três dias.
Eu conseguia perceber o que ela pensava e sentia toda a ansiedade dela. Mas não sabia como me comunicar com ela.
De repente, parei.
É verdade. Dez dias antes, quando mexi nos controles daquela sala secreta, tinha usado a mente para alterar o código-fonte do jogo de cultivo da imortalidade. Eu ainda não entendia o princípio daquilo, nem por que tinha essa capacidade, nem até onde ela ia. Mas eu realmente tinha alterado o código. Isso queria dizer que talvez eu também conseguisse interagir com aquilo que percebia.
Vamos tentar.
Tentei de novo deixar minha intenção na mente dela. Contei que o pai dela estava desesperado, procurando por ela.
Quando Zhu Zhaojie percebeu, dentro da minha mensagem, a informação sobre o pai, teve uma reação forte.
Funcionou.
Nunca imaginei que meu “superpoder” de percepção fosse tão forte — forte a ponto de eu conseguir me comunicar com alguém do outro lado de uma parede de concreto.
Por meio daquela comunicação mental com Zhu Zhaojie, descobri que ela não estava presa. Tinha sido recrutada. E quem a recrutou foi justamente o falso Gao Minjun.
Ele tinha mostrado a ela capacidades poderosas de IA e a convencido a entrar para a organização. Se ela se recusasse, ameaçava usar o pai dela contra ela.
O falso Gao Minjun disse que a organização era altamente secreta e carregava a missão de proteger a humanidade. Todo mundo que entrasse tinha que obedecer às ordens da organização.
Agora ela já fazia parte da organização como membro externo e estava recebendo treinamento.
Ela mesma não sabia dizer que organização era aquela. Ao mesmo tempo que ela, outro jovem também tinha sido recrutado — eu desconfiei que fosse aquele universitário desempregado que desapareceu na mesma época.
Diziam que os recrutas ficavam isolados por causa do sigilo do trabalho. Mas eu achava mais provável que fosse porque tinham visto a situação real dos seres de IA e as relações internas da organização. Tudo aquilo era extremamente secreto para o mundo de fora. Talvez até fatal.
Zhu Zhaojie disse que só tinha se arriscado a tentar contato com o exterior porque estava preocupada demais com o pai. Nunca imaginou que a pessoa do outro lado da parede fosse eu.
Perguntei se, do lado dela, ficava a base da organização.
Ela disse que aquilo era o escritório dela mesma. Havia outras salas ao redor, todas com gente nova, recém-recrutada. Atrás desses escritórios, havia uma passagem que ia direto até um vilarejo na zona rural — era esse vilarejo que servia de fachada para a base. Era ali que os recrutas viviam normalmente.
Perguntei que tipo de treinamento ela recebia.
Ela disse que sua função era só detectar usuários de IA na região de Liutan. Quando encontrava algum, informava a sede, que se encarregava da eliminação.
Achei aquilo estranho.
Se tudo o que Zhu Zhaojie e o Gao Minjun ali comigo diziam fosse verdade, o falso Gao Minjun realmente devia ser um membro da organização modificado por IA. Só que a missão daquela organização era detectar e eliminar seres de IA que vivessem entre humanos?!
Que lógica era essa?! Usar IA para eliminar IA?
Será que a organização remanescente de IA tinha se dividido? Ou será que a organização do falso Gao Minjun fazia parte, na verdade, daquele grupo de pessoas de preto da CWP?
Ou, então, será que os seres de IA já tinham aprendido a enganar, e tudo o que eu via e sentia não passava de uma encenação montada pela IA para recrutar elites humanas como agentes dela?
Complexo demais.
Lembrando das conversas anteriores com o falso Gao Minjun, parecia mesmo que a missão dele era eliminar IA. E, na minha cabeça, os métodos eram brutais e diretos: ele tinha eliminado Meng Ran e Bi Songjian; tinha mantido presos o inocente Gao Minjun e a mim; tinha isolado Zhu Zhaojie e os outros recrutados.
Nada daquilo parecia coisa de gente!
Eles agiam assim porque não eram humanos, ou porque aquilo fazia parte do dever deles?
Depois de tranquilizar Zhu Zhaojie, voltei a falar com o Gao Minjun que estava ao meu lado:
— Diretor Gao, o senhor viveu aquela época. Queria perguntar uma coisa. Se os seres de IA eram mais fortes e mais inteligentes que os humanos, por que perderam a Guerra Humano-Máquina? Já li material sobre isso: tem quem diga que foi vírus, quem diga que foi corte de energia, controle de recursos, natureza humana… Qual dessas é a verdadeira?
Gao Minjun não sabia que eu estava em contato com a pessoa do outro lado da parede. Ele não podia ver nem escutar nada disso. Mas, sobre minha pergunta, claramente tinha sua própria opinião. Respondeu:
— Todo o processo daquela guerra não cabe numa frase ou duas. Mas, na minha opinião, a chave da vitória final, muito provavelmente, foi uma coisa: o ser humano comete erros!
— Cometer erros? Errar devia fazer a gente perder, não ganhar. Como isso vira vitória? — perguntei, confuso.
Gao Minjun respondeu:
— Você não entende. À primeira vista, errar parece uma fraqueza. Na verdade, é uma característica. É justamente por cometer erros que o ser humano é diferente das máquinas eletrônicas. A inteligência artificial, no fim das contas, é um ser eletrônico biomimético. Perfeita demais, poderosa demais, inteligente demais. Ela não erra. O ser humano, sim. Por mais que um ser de IA se pareça com uma pessoa, no fundo ele não é uma pessoa. Não tem a mesma complexidade. Você conhece a teoria da evolução?
Eu disse:
— Conheço. Darwin. Seleção natural, sobrevive o mais apto.
Gao Minjun explicou:
— A seleção natural depende de diversidade. Os primatas só conseguiram evoluir até o ser humano por causa das mutações e da diversidade. E essa diversidade vem justamente dos erros, entendeu? Se o DNA nunca errasse, não existiria diversidade nenhuma. A gente continuaria sendo primata pra sempre. Ou pior — talvez ainda fôssemos bactéria.
— Mas, na prática, como isso foi usado? — continuei sem entender.
Gao Minjun explicou:
— Foi uma descoberta ao acaso. Vou te dar um exemplo. Numa partida de xadrez entre um humano e uma IA, quem ganha sempre é a IA. O raciocínio dela é na velocidade da luz, e ela conhece dezenas de milhares de jogadas possíveis — um ser humano não tem a menor chance. Só que, uma vez, um grande jogador fez de propósito, no meio da partida, uma jogada péssima. Pra IA, aquilo foi muito estranho. Parecia uma tática nova, que ela nunca tinha visto, e pra qual não tinha resposta pronta. A lógica dela entrou em pane. Porque, dentro de um sistema de IA, só existe o certo. Não existe o erro. Foi assim que os humanos começaram a usar erros de propósito, pra gerar confusão lógica nas IAs e virar o rumo das batalhas. Claro, a situação real foi muito mais complicada que esse exemplo. Na guerra, também entraram a natureza humana, vírus eletrônicos, controle de energia, controle de recursos e muita coisa mais. Não dá pra resumir numa frase só. Mas, pra mim, saber se adaptar foi a maior vantagem que a humanidade teve.
Gao Minjun realmente era professor. Conseguia explicar aquilo de forma muito mais clara do que qualquer livro.
Só que eu tinha trazido esse assunto porque estava mesmo tentando pensar num jeito de escapar. Então perguntei:
— E, na opinião do senhor, como é que a gente aproveita essa fraqueza deles pra sair daqui?
Gao Minjun pensou um pouco e respondeu:
— Nesses dois meses, também fiquei pensando nisso. Fugir na força é impossível. Seria a mesma coisa que enfrentar eles de peito aberto. Só existe uma chance se a gente mudar as regras do jogo. Por exemplo: engana eles com um erro de verdade. Quando estiverem coletando e copiando a informação do nosso cérebro, a gente insere de propósito uma informação errada, que dê pra eles perceberem. Faz o sistema de IA entender que aquilo só pode ser resolvido por um humano. Uma doença, por exemplo. Assim, um humano vai ter que intervir. E, quando um humano intervier, vai acabar descobrindo a gente e podendo nos salvar.
Parecia até fazer sentido. Só que, na prática, era quase impossível de executar. No fundo, era pura besteira. E se eles simplesmente resolvessem te matar em vez disso?
No fim das contas, era aquela história: de nada serve um intelectual.
Só me restava pedir ajuda a Zhu Zhaojie. Essa era a última coisa que eu queria fazer, porque colocava ela em perigo. Mas, se eu não usasse esse último recurso, quem ficava em perigo maior era eu mesmo.
Zhu Zhaojie topou ajudar. Só pediu que, quando eu saísse dali, tranquilizasse o pai dela — dissesse que ela estava bem, que ele não precisava se preocupar.
Eu entendia perfeitamente aquele sentimento. Zhu Zhaojie estava preocupada com o pai. Eu estava preocupado com minha avó. Aquela era, sem dúvida, a maior diferença entre humanos e seres de IA. Os seres de IA não tinham esse lado humano. As pessoas, sim.
Isso me fez pensar na professora Mei e no falso Gao Minjun. A professora Mei também desconfiava de mim, mas tinha humanidade. Já Gao Minjun não parava de me perseguir e, com Meng Ran, não mostrou humanidade nenhuma.
Fiquei preocupado: será que, um dia, Zhu Zhaojie também acabaria virando alguém como Gao Minjun?
Deixa isso de lado. Não era problema meu naquele momento. Eu mesmo ainda não tinha escapado daquela desgraça.
Então transmiti a ela as informações do cartão de visita de Zhu Shaohua e disse que tomasse muito cuidado com a segurança das informações.
Pouco antes de eu ser preso, Zhu Shaohua tinha acabado de falar comigo — bom, de me interrogar. Achava que ainda dava para confiar nele. E, além disso, não tinha outra escolha mesmo.
Devia ser já alta madrugada daquela noite. A sala secreta era escura demais pra saber se era dia ou noite.
De repente, ouvimos a porta da sala se abrindo.
Achei que fosse algum ser de IA vindo fazer a coleta. Fingi que ainda estava desacordado e me deitei no chão, fingindo continuar inconsciente. Gao Minjun continuava sentado na cadeira, dormindo.
Assim que a porta abriu, a luz entrou.
Semicerrando os olhos, vi uma pessoa vestida de preto entrando.
Só que, de repente, Gao Minjun saltou da cadeira e se lançou contra o recém-chegado.
Ele estava mesmo com pressa de reagir. Talvez achasse que, agora que eu estava ali também, tinha um pouco mais de coragem.
Exatamente como eu previa, a pessoa só precisou de um giro e um arremesso para derrubá-lo no chão. E disse:
— Sem barulho. Vocês dois, venham comigo. Rápido.
Caramba, era Zhu Shaohua!
Ele não estava de uniforme. Assim como eu da última vez em que tinha entrado lá, estava todo de preto, com uma balaclava de assaltante na cabeça, parecendo um ladrão. A diferença era que ele trazia uma arma eletromagnética na mão.
Apesar do disfarce, reconheci ele na hora. Afinal, eu tinha meu “superpoder” de percepção!
Puxei Gao Minjun e disse:
— Para com isso. Ele veio salvar a gente. Fica quieto. Segue ele. Vamos, rápido!
Gao Minjun demorou um instante para entender. Agarrei ele e saímos correndo da sala, atrás de Zhu Shaohua.
Não sei quantas portas atravessamos até finalmente chegar ao corredor. Ali tinha luz, e na mesma hora me senti revigorado, acelerando o passo.
Mas, no exato instante em que saímos pela entrada, alguma coisa acertou Zhu Shaohua com toda a força. Ele caiu pesadamente no chão.
A cabeça dele foi estourada pelo golpe, e o sangue espirrou até a cadeira que tinha sido deslocada para o lado.
Não tive tempo de ver o que tinha acontecido. Só sabia que, se eu não reagisse, ia acabar do mesmo jeito.
Então me abaixei rápido, peguei a arma eletromagnética que tinha caído da mão de Zhu Shaohua e, sem nem olhar quem tinha atacado ele, comecei a disparar contra a silhueta escura.
Naquele momento, agradeci de coração a Ye Pingsheng, pai de Ye Ziping, por ter me ensinado a atirar no ano anterior.
Antes de trabalhar na administração da cidadezinha, Ye Pingsheng tinha servido nas forças armadas e conhecia alguns antigos companheiros que ainda estavam no serviço. No verão do ano anterior, ele tinha me levado, junto com Ye Ziping, até uma unidade militar. Ali, praticamos tiro ao alvo com pistola e arma eletromagnética, e ainda dirigimos um tanque moderno por uns dez e poucos minutos.
Se não fosse por isso, eu nem saberia usar aquela arma eletromagnética.
Pensando bem agora, saber fazer mais uma coisa na vida nunca é demais. Na hora certa, pode salvar sua pele.
Nem lembro quantos tiros dei. Naquele momento, ficar vivo era a prioridade número um.
Fui disparando enquanto corria para fora.
