Capítulo 4 — Metaverso
por NexoNovelCapítulo 4 — Metaverso
O lugar que Gao Minjun escolheu para conversar comigo foi, justamente, aquele cômodo misterioso onde todos os alunos do último ano tinham sido examinados depois da morte de Meng Ran.
Na hora combinada, fui sozinho até a porta.
Ela estava entreaberta.
Empurrei a porta achando que lá dentro estaria escuro. Para minha surpresa, estava muito claro. Todas as luzes estavam acesas. O lugar parecia um estúdio de filmagem, cheio de equipamentos. E a sala nem parecia tão grande.
O diretor Gao estava sentado numa cadeira cheia de fios. Quando me viu entrar, fez sinal para que eu me sentasse em outra cadeira igual.
Depois que me acomodei, indicou que eu colocasse o capacete preso ao encosto.
Assim que coloquei o capacete, vi que ele apertou um botão na frente da cadeira. Com um estrondo, a sala mergulhou no escuro.
Um escuro completo.
Um silêncio absoluto.
Foi então que ouvi, vindo de longe e se aproximando, o tac-tac-tac dos passos de uma mulher.
Com um rangido, uma porta se abriu, e um facho de luz forte atravessou e entrou por ela.
Eu nem sabia que havia uma porta naquela direção.
Uma mulher de figura elegante surgiu de dentro da luz, veio até mim e fez um gesto com a mão, indicando que eu a seguisse.
O que aquilo queria dizer?
Hesitei e virei a cabeça para olhar o diretor Gao.
Ele tinha desaparecido.
Onde estava o diretor Gao? Aquilo era uma ilusão ou era real? Eu já não conseguia distinguir.
Resolvi descer da cadeira e seguir a mulher até a porta. Mas eu suspeitava que tudo aquilo fosse apenas uma ilusão, então bati nela de propósito ao passar.
— O que você está fazendo?
Para minha surpresa, a mulher realmente reagiu.
— Desculpe. Foi sem querer. Perdi o equilíbrio.
Respondi depressa.
Aquilo também provava que a mulher em quem eu tinha esbarrado tinha consistência, tinha calor. Parecia uma pessoa de verdade.
Atravessamos a porta e, do outro lado, havia um mundo de conto de fadas banhado pela luz do sol.
Florestas densas, canto de pássaros, perfume de flores. Dava até para sentir o cheiro fresco da natureza.
Mas eu me lembrava muito bem de que, naquela direção, devia estar o muro da escola. E, do outro lado do muro, havia plantações. Como podia existir um mundo novo ali?
A mulher apontou para uma garota que cavalgava na direção da floresta.
— Olhe. Quem é aquela?
— Zhu Zhaojie?
O que Zhu Zhaojie estava fazendo ali?
— Gu Beichen, como é que você veio parar aqui?
Zhu Zhaojie logo nos viu. Fez o cavalo disparar na nossa direção e me cumprimentou com um sorriso.
Aquilo era real? Por que parecia um sonho?
Mas, se fosse falso, como eu conseguia sentir de verdade o cheiro forte de urina de cavalo misturado ao cheiro da mulher?
Quando Zhu Zhaojie chegou diante de mim a cavalo, passei a mão de propósito pelo pelo do animal. Era mesmo bem áspero. O toque não mentia. Devia ser real.
A cor da pelagem também era bonita.
Dei dois tapinhas na garupa do cavalo e ainda senti o calor.
— Zhu Zhaojie, o que você está fazendo aqui? Onde é este lugar?
— Este aqui é um mundo completamente novo. É enorme e muito divertido. A gente chegou há dois dias. Você também é muito bem-vindo para se juntar a nós! — Zhu Zhaojie soltou uma sequência de risadas.
Perguntei:
— “A gente”? Quem mais está aqui?
— Tem um monte de colegas. Este mundo é enorme. Todo mundo se espalhou para procurar os lugares de que mais gosta.
Enquanto falava, Zhu Zhaojie já ia saltar do cavalo.
De repente:
Fiuu!
Uma flecha assobiadora veio voando e acertou o flanco do cavalo. O animal, tomado pela dor, empinou e soltou um longo relincho, derrubando Zhu Zhaojie no chão.
Logo depois, veio outra flecha.
E outra.
Uma atrás da outra.
Puxei Zhu Zhaojie depressa e me joguei com ela para o lado.
Vi então incontáveis selvagens correndo na nossa direção, com o torso nu, saias de pele na cintura, arcos, flechas e facões nas mãos. Eles perseguiam uma enorme fera monstruosa parecida com uma aranha. E parecia haver alguém montado em cima dela.
— Ye Ziping?
Era mesmo Ye Ziping, controlando aquela criatura enquanto corria. Ele gritava para mim:
— Beichen, pega uma arma! Mata eles!
Eu ¥§@
Que lugar era aquele? Eu ainda estava completamente perdido quando Ye Ziping, do alto da criatura, jogou uma lança comprida na minha direção. Peguei a lança depressa para me defender.
Nesse momento, mais de dez selvagens nos viram e mudaram de direção, vindo para cima da gente com os facões erguidos. Puxei Zhu Zhaojie para trás de mim e varri a lança para o lado. Derrubei vários de uma vez.
Os restantes continuaram avançando como se não se importassem em morrer.
Eu #$%.
Melhor correr.
Agarrei Zhu Zhaojie e corri como um louco de volta para o cômodo de onde eu tinha saído, como se minha vida dependesse disso.
Minha nossa.
Quase morri de susto.
Assim que entrei no cômodo, todas as luzes se acenderam de repente.
Tudo lá dentro estava como antes.
O diretor Gao estava me olhando com um sorriso no rosto.
E uma das mãos dele segurava a minha.
Porra! Aquilo não era Zhu Zhaojie coisa nenhuma. Era Gao Minjun! Que nojo. Soltei a mão dele na mesma hora.
— Nada mal. Ainda sabe ser herói e salvar a mocinha. Isso mostra que, no fundo, seu coração ainda é bom.
Gao Minjun parecia muito satisfeito consigo mesmo.
— Diretor Gao… isso… isso foi real ou falso?
Eu mal conseguia organizar as palavras.
— Isto é apenas uma entrada para o metaverso.
— Isto é o metaverso?
Minha avó tinha me falado do metaverso havia muito tempo. Era um produto inteligente de antes da Guerra Humano-Máquina mundial. Diziam que era um espaço virtual tridimensional capaz de integrar e reproduzir interativamente a realidade virtual e a realidade física. Mais tarde, quando a inteligência artificial evoluiu até a fase da IA, o metaverso acabou reduzido a um jogo de entretenimento de baixo nível e foi abandonado.
Como podia haver uma coisa dessas ali?
Gao Minjun não pareceu surpreso por eu conhecer o metaverso e tomou a iniciativa de explicar:
— O metaverso é um produto anterior à fase da IA e não é tão útil quanto a inteligência artificial. Mas, para treinamento e entretenimento, ajudando os alunos a compreender o mundo tridimensional, ainda tem muita utilidade.
— Mas espere, diretor Gao.
Interrompi a explicação dele depressa.
Porque eu conhecia um problema jurídico: desde a Guerra Humano-Máquina, em todo o mundo era proibido voltar a produzir ou possuir produtos de inteligência artificial, para impedir que a IA voltasse a superar os seres humanos e se transformasse numa grande ameaça.
Isso estava expressamente previsto em lei. Então perguntei na mesma hora:
— Diretor Gao. Depois da Guerra Humano-Máquina mundial, o mundo inteiro proibiu expressamente a produção e o uso de todos os produtos de inteligência artificial. O senhor esconder um produto inteligente desses não seria ilegal?!
Gao Minjun respondeu de imediato:
— Você está certo. A ONU realmente estabeleceu essa regra. É por isso que existem órgãos de combate à IA em vários lugares. As mortes de Meng Ran e do vice-diretor Bi são um exemplo.
— Mas o nosso sistema é diferente. Ele foi aprovado pelo Estado. Ou melhor: é uma instalação importante que o Estado colocou deliberadamente dentro das escolas para que os alunos possam usá-la normalmente.
Eu disse:
— Então quer dizer que nem todos os produtos de inteligência artificial são proibidos? Existem exceções?
Eu precisava perguntar. Porque os textos legais que eu tinha lido não traziam exceção nenhuma.
— Na sua opinião, qual é a diferença entre os seres humanos e os animais?
Gao Minjun mudou de assunto.
— Fabricar e usar ferramentas, claro. Marx disse isso.
Essa eu sabia.
Gao Minjun continuou:
— Certo. A vida humana não pode prescindir de ferramentas. Produção e vida cotidiana precisam delas. O metaverso também é uma ferramenta. É uma ferramenta voltada às necessidades intelectuais e educacionais. Claro que você vai perguntar: se isso também faz parte da inteligência artificial, por que não é ilegal? A diferença, na verdade, está em representar ou não uma ameaça à humanidade. Por exemplo, uma faca é algo de que os seres humanos precisam. É uma ferramenta. Mas, se essa faca criar uma cabeça, tiver pensamentos e puder decidir sozinha quem vai cortar, então se transforma numa ameaça à humanidade. E precisa ser proibida.
Ao terminar de falar, Gao Minjun não deixou de tirar o próprio capacete.
Perguntei:
— E como isso é definido? Quem decide?
Eu não ia com a cara dele e estava com vontade de contestar tudo. Então continuei:
— Não dá para simplesmente dizer que uma coisa é útil para as pessoas e não representa ameaça, então está tudo bem; mas a outra representa ameaça, então está proibida. Se for assim, eu acho que a Cápsula da Sabedoria que Meng Ran usou era ótima. Era bem útil. No futuro ninguém precisaria mais estudar. Bastava instalar uma Cápsula da Sabedoria e pronto, todo mundo saberia de tudo. Não seria maravilhoso? Como isso ameaça os seres humanos?
Gao Minjun elevou a voz:
— Gu Beichen! Esse seu pensamento é muito perigoso!
Parecia que eu tinha tocado num ponto sensível. Ele ficou um pouco alterado e disse em voz alta:
— A principal lição do caso de Meng Ran é que o produto de inteligência artificial que ele usou, se não fosse proibido, poderia muito bem se desenvolver até se tornar uma arma letal definitiva, com inteligência superior à humana. Você entende?! O metaverso, por outro lado, é apenas um jogo virtual! Não é uma ferramenta de aplicação prática; é uma ferramenta educacional e de entretenimento. Há uma diferença enorme. A interação entre o virtual e o real permite formar uma compreensão correta das questões. É a melhor forma de ensino. Não representa ameaça aos seres humanos. Já a Cápsula da Sabedoria de Meng Ran é um produto de aplicação prática da IA, com grande margem para desenvolvimento autônomo.
Eu adorava vê-lo perdendo a calma e provoquei de propósito:
— No fim das contas, os dois são essencialmente ferramentas de inteligência artificial. Agora não representam ameaça. Mas no futuro, quem sabe? O senhor pode garantir que isso não vai se desenvolver e evoluir?
Gao Minjun percebeu de repente que, se continuasse discutindo daquele jeito, podia acabar perdendo. Mudou imediatamente de tom e ficou muito mais brando.
— Beichen. Você sabe por que eu quis mostrar o metaverso a você?
Respondi:
— Não. Não vai me dizer que era só para abrir meus horizontes, vai? Mas tenho que admitir: foi a primeira vez que vi uma coisa dessas. É divertido. Gostei. Diretor Gao, tudo o que eu disse agora também foi para o seu bem. Fiquei com medo de o senhor acabar seguindo o mesmo caminho do vice-diretor Bi. Aí a gente ia ficar com a consciência pesada.
Até aquele momento, eu ainda não tinha entendido qual era o objetivo dele ao me chamar ali.
Gao Minjun não esperava sair por baixo naquela conversa.
— Ah… você, garoto. Na verdade, tudo o que disse agora era justamente o que eu pretendia dizer. Só que quase deixou a conversa tão enrolada que eu acabei virando o vilão.
Gao Minjun recompôs-se e continuou:
— Hoje eu mostrei o metaverso a você porque queria que entendesse o quanto a inteligência artificial pode ser poderosa e sedutora. Principalmente para os jovens, ela pode oferecer quase tudo o que você espera. Por exemplo: o mundo real é limitado pelas leis da física. Não dá para transformar uma pessoa em um objeto, nem fazer uma aranhinha crescer até ficar do tamanho de um elefante. Mas no metaverso dá. Ele não está sujeito às limitações da física e da química do mundo real. É isso que torna a inteligência artificial assustadora.
Emendei imediatamente:
— Mas o que tudo isso tem a ver comigo?
Aquele sujeito dava voltas demais. Eu precisava puxar a conversa de volta para o assunto de verdade. Quem tinha tempo para ficar batendo papo à toa com ele? Eu tinha mais o que fazer.
— Porque você é muito especial.
Gao Minjun finalmente voltou ao ponto principal. Fixou em mim um olhar concentrado e disse com dureza:
— Você tem que me dizer como conseguiu fazer isso.
