Capítulo 2 — Trapaça
por NexoNovelCapítulo 2 — Trapaça
Só naquele momento percebi que saber um monte de coisas não servia para muita coisa. A prova não queria saber quanto eu conhecia do mundo. Só cobrava o que tinha sido ensinado em sala.
Mas por que minha avó nunca tinha me contado isso? Ela gostava tanto de mim.
Ah… agora já era meio tarde.
Não resisti e dei uma espiada em Zhu Zhaojie.
Aquela garota bonita, na verdade, morava no andar de cima do meu.
Eu morava no segundo andar; ela, no terceiro. Éramos colegas de escola e ainda vizinhos. Em teoria, isso devia render alguma história. Só que o pai dela era rígido num nível absurdo.
Ye Ziping me contou que o pai dela me achava um péssimo aluno e mandava a filha ficar longe de mim. Segundo ele, aluno ruim que ainda por cima é bonito só pode ser cafajeste. Um sujeito desses não leva relacionamento a sério e acaba enganando as garotas.
Eu @#%$!
Eu nem tinha tentado conquistar a filha dele, tá? O homem já tinha me colocado um rótulo desse tamanho.
Olhando para as costas bonitas de Zhu Zhaojie, senti de repente uma espécie de palpitação leve e estranhamente límpida. Como se tivesse ouvido alguma coisa.
Não podia ser.
Parecia que eu conseguia ouvir Zhu Zhaojie recitando mentalmente alguma coisa enquanto encarava a prova.
Caramba. Ela estava me passando as respostas?
Eu estava sentado na diagonal atrás dela, mas ainda conseguia ver seu rosto de perfil.
Os lábios dela não se mexiam. E nem os colegas ao redor nem os fiscais da prova demonstravam reação alguma.
Será que só eu conseguia ouvir?
Imediatamente concentrei toda a atenção em Zhu Zhaojie. E, de fato, a sensação ficou muito mais nítida.
Ou seja: o que quer que ela pensasse, eu conseguia captar. Exatamente como tinha acontecido no dia anterior, quando captei os pensamentos da minha avó.
Bastava comparar o raciocínio de Zhu Zhaojie com a minha própria prova. Era como se alguém estivesse sentado ao meu lado, explicando com toda clareza cada questão e cada resposta.
Ah, quer saber? Tanto faz.
Não consegui evitar uma pontinha de empolgação. Olhei para os lados:
Dois fiscais circulavam pela sala, um na frente e outro atrás. No canto, a câmera de vigilância piscava um ponto vermelho.
Mas eu tinha medo de quê?
Eu não estava colando. Não dava para me acusar injustamente assim. Eu estava ali, debruçado sobre a carteira, fazendo a minha prova direitinho, não estava?
Onde quer que o pensamento de Zhu Zhaojie fosse, eu ia logo atrás e aproveitava tudo. Enquanto copiava, pensava:
Ah, minha Zhu-Zhu, você é boa demais. Depois eu te pago um chá com leite.
Quando Zhu Zhaojie pensava nos passos para resolver uma questão, eu escrevia os mesmos passos.
Uma questão atrás da outra.
O cartão-resposta era igual para todo mundo.
Era só preencher.
Eu quase comecei a rir. Desde quando eu tinha essa habilidade? Por que nunca tinha percebido antes?
As pessoas de preto?
Ou minha avó?
O que elas tinham feito comigo?
Será que alguma coisa tinha mudado no meu corpo durante aqueles três dias?
Agora eu entendia por que Meng Ran quis usar alta tecnologia para alcançar Zhu Zhaojie. Então colar numa prova podia ser tão fácil assim?
Caramba, minha cabeça não ia explodir também, ia?
Só de pensar em Meng Ran, fiquei um pouco nervoso. Passei a mão na cabeça, dei umas batidinhas. Nada parecia errado. Além do mais, eu não tinha uma Cápsula da Sabedoria instalada no cérebro. Se tivessem colocado alguma coisa ali, eu não saberia? Minha avó não saberia?
Medo de quê?
A prova durava duas horas, mas Zhu Zhaojie terminou em uma hora e meia. Depois que ela entregou a prova, eu ainda enrolei um pouco, fingindo revisar as respostas. Só quando o tempo acabou fui, bem devagar, entregar a minha. Assim combinava mais comigo.
Entregar cedo demais seria estranho.
Durante esse tempo, a professora Mei também reparou em mim. Veio até a minha carteira várias vezes. Às vezes, parava ao meu lado e não saía. Chegou a olhar para a minha prova, surpresa, circulou algumas vezes em volta de mim e passou um tempão me examinando só com o olhar. No fim, não disse nada.
Eu nem me dei ao trabalho de levantar a cabeça.
Estava fazendo a prova.
Ocupado.
O que ela podia fazer comigo?
Nas provas das outras matérias, repeti exatamente o mesmo método.
Quando voltei para casa, quase comecei a rir.
Será que minha vida tinha acabado de entrar no modo cheat?
O destino realmente gosta de brincar com as pessoas.
No fim das contas, até o céu resolveu fazer justiça a todo o meu conhecimento.
Assim passou uma semana.
Até chegar o dia em que divulgaram o resultado geral da pré-seletiva.
Fui para a escola todo contente, pensando que a prova de Zhu Zhaojie não devia ter ido nada mal. Claro, seria melhor que a minha nota também não deixasse ninguém de queixo caído. Seria difícil explicar.
Mas então pensei: e daí? Eu não tinha colado. Todo mundo viu que fui eu mesmo quem escreveu as respostas. Se alguém duvidasse, era só olhar as câmeras.
Só que eu tinha subestimado a falta de vergonha de certas pessoas.
Assim que cheguei à escola, ouvi gente comentando que a professora Mei tinha ido direto falar com o diretor Gao Minjun e me acusado de ter colado. O motivo: minha nota total tinha sido a segunda mais alta da escola inteira.
Caramba. Eu tinha maquiado tudo direitinho.
Em cada prova, eu tinha errado algumas respostas de propósito ou pulado algumas etapas justamente para diminuir as suspeitas. Claro que também não ousei errar demais, porque podia ter calculado mal.
Só que havia uma coisa que eu nunca teria imaginado. Diziam que as questões daquela rodada estavam difíceis demais. E Meng Ran já era. Com isso, a diferença entre Zhu Zhaojie e todo mundo atrás dela ficou enorme. E eu acabei em segundo lugar.
Anos e anos sendo um desastre na escola.
Está bem. Nem eu acreditava.
Se soubesse, teria errado mais algumas. Mas como eu ia imaginar que Zhu Zhaojie era tão boa a ponto de abrir uma distância tão grande entre o primeiro e o terceiro lugar?
Nos dias seguintes, sempre havia alguém dizendo que eu tinha colado. Não me expliquei. Apenas fiquei preparado para quando Gao Minjun viesse falar comigo.
Cheguei a ensaiar mentalmente uma porção de respostas. Só esperava Gao Minjun aparecer.
Mas nada aconteceu.
Ninguém veio falar comigo. Nem “não se levantou” apareceu para perguntar nada.
Será que os boatos eram falsos? O diretor Gao e a professora Mei acreditavam no meu caráter?
Não podia ser.
Nos dias seguintes, fiquei prestando atenção nas conversas dos outros como se fosse um ladrão. Tirando as piadas dos meus colegas, porém, os professores estavam estranhamente calados.
Aquilo não era normal.
Nada normal.
E, de fato…
Percebi que alguém estava me seguindo.
Era um tipo de perseguição muito bem-feita, porque eu nunca conseguia ver a pessoa. Só sentia como se houvesse sempre um par de olhos grudado nas minhas costas.
Então procurei Ye Ziping e pedi que prestasse atenção. Ele observou por alguns dias e disse que eu estava paranoico. Não havia ninguém atrás de mim.
Será?
Eu ainda confiava na minha sensação. Foi graças a ela que passei de um péssimo aluno para o segundo colocado da escola. Não ia conseguir descobrir quem estava me seguindo?
Então comprei às escondidas uma microcâmera e prendi atrás da gola da camisa. Eu queria ver quem era o desocupado que estava me seguindo e por quê.
Depois de alguns dias observando, realmente descobri alguma coisa: provavelmente era Gao Minjun, o diretor enviado pela capital da província. Ele sempre aparecia atrás de mim como se fosse por acaso.
Às vezes surgia no caminho de volta para minha casa. Às vezes vinha pedalando devagar atrás de mim quando eu saía da escola. Outras vezes ficava escolhendo frutas na barraca em frente à minha casa. Até quando eu ia comprar o café da manhã, eu o via conversando com alguém debaixo da sombra de uma árvore.
Seria ele? Por que me seguir?
Mas eu tinha certeza de que aquilo não era coincidência.
Eu conseguia sentir o olhar aparentemente casual de Gao Minjun varrendo a minha direção de vez em quando.
Não estava a fim de dar atenção a ele.
Eu não tinha segredo nenhum.
Bem… pensando melhor, talvez tivesse. Mas ele conseguiria perceber?
Nos dias seguintes, continuei fazendo o que sempre fazia.
Logo chegou o dia do exame oficial de classificação por grupo.
Eu nem queria participar das avaliações para universidades de elite. Se pudesse fazer os exames das universidades regulares, já estava ótimo. Eu me daria por satisfeito entrando numa universidade comum.
Só que, porra, eu agora era o segundo colocado da escola! Se eu não fosse, aí sim seria estranho.
Então fui de má vontade fazer todas as avaliações para universidades de elite.
O método?
O mesmo de antes.
Antes das provas, eu também não fiquei parado. Para aprender a controlar aquela habilidade de percepção mental com mais precisão, ia sempre a lugares cheios de gente para praticar. Escolhia alguém que eu conhecia, focava naquela pessoa e tentava captar seus pensamentos. Depois, procurava confirmar discretamente se o que tinha captado estava certo ou não.
Claro, sempre que fazia isso, tentava ficar longe de Gao Minjun.
Aliás, havia uma coisa nele que me deixava muito intrigado. Por mais que eu tentasse, não conseguia captar os pensamentos dele. Tentei várias vezes. Nada.
Aquele sujeito com certeza escondia alguma coisa.
Estava chegando o dia de divulgarem os resultados do exame de classificação.
Eu estava bastante confiante. Nas provas seguintes, tinha aprendido a lição. Não dava para copiar tudo de uma pessoa só. E precisava deixar alguns erros. Minha meta era manter a nota numa faixa mediana para baixa — ou, no máximo, entre as melhores da faixa inferior.
Pouco depois, saíram as notas oficiais do gaokao. A etapa seguinte seria a fase de escolha mútua entre instituições e candidatos, que podia ser feita pelo celular.
Foi então que o meu problema de verdade apareceu.
Naquele dia fui à escola buscar um formulário, e alguém me avisou para passar no escritório do diretor Gao.
Eu já estava preparado psicologicamente, então não dei muita importância e fui direto para lá.
Quando abri a porta, congelei.
Nunca imaginei que os professores de várias matérias cobradas nas provas estariam todos ali.
Cinco professores das matérias principais estavam sentados em semicírculo. Cada um segurava uma folha de papel. Bem no centro, diante deles, havia uma cadeira.
Obviamente era para mim.
Sentei, inquieto, e fiquei olhando para aqueles professores, esperando que começassem a fazer perguntas.
Os cinco me entregaram as folhas quase ao mesmo tempo, todos com expressões muito sérias. Peguei os papéis, olhei… e pronto.
Ferrou.
Eles iam me testar de novo!
Em cada folha havia uma questão padrão da matéria ensinada por aquele professor.
Os cinco professores estavam sentados muito eretos à minha frente, cinco pares de olhos fixos em mim, sem dizer uma palavra. O diretor Gao, de pé ao lado, falou:
— Beichen. Os resultados das suas duas avaliações, dez provas ao todo, foram, pode-se dizer, uma verdadeira revelação. Como professores, queremos sinceramente que a nossa escola forme um aluno excepcional. Ainda mais numa escola como a nossa, numa região montanhosa e afastada. Ao mesmo tempo, a lição deixada por Meng Ran ainda está muito presente e teve um impacto profundo. Por uma questão de justiça, precisamos verificar a autenticidade dos seus resultados. Estas cinco questões foram retiradas da versão B das provas. Resolva cada uma delas. Não vai levar muito tempo. Faça aqui, diante de nós, para que possamos avaliar. Afinal, tem havido muitos comentários nos últimos dias e precisamos dar uma explicação ao público. Espero que compreenda.
Levantei os olhos e percebi que a professora Mei, por incrível que parecesse, não estava ali. Ela era a professora responsável pela minha turma e ensinava matemática. Eu nunca tinha passado na matéria dela. Também tinha sido uma das primeiras a desconfiar de mim. Não fazia ideia de por que justamente ela não tinha aparecido. No lugar dela estava o professor de matemática da Turma 1.
Fiquei parado, segurando as folhas, e examinei uma questão depois da outra.
Ah…
Eu realmente não sabia fazer.
E o pior era que agora não tinha de onde copiar! Os professores não estavam resolvendo as questões, então eu não conseguia captar nenhuma informação útil.
Aguardando resposta. Urgente.
