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    Capítulo 69 — As Dezoito Camadas do Inferno

    Quando saí pela porta do salão do Palácio Beiyin Fengdu, os dois Wuchang Preto e Branco se afastaram na hora para o lado, tratando-me com um respeito solene. Talvez nunca tivessem visto alguém ousar bater de frente com o patrão deles.

    Já que o próprio senhor da cidade tinha me dado liberdade para circular, por que eu faria cerimônia? Não havia pressa nenhuma de ir embora.

    Primeiro passei pelo Palácio do Oficial dos Méritos, depois dei uma volta pelo Salão dos Dez Reis Yama.

    Todo o Castelo do Senhor de Guiyoucheng tinha a aparência arquitetônica de um submundo, mas, no fundo, não passava de uma área administrativa mimética. E quem ocupava o posto de Rei Qinguang, primeiro entre os Dez Reis Yama, era justamente aquele que havia se confrontado comigo em força de consciência no Palácio Beiyin Fengdu.

    Entrei no escritório dele.

    Ao me ver chegar, também não fez cerimônia. Serviu-se de uma xícara de chá, bebeu e me disse:

    — Se quiser beber, sirva-se.

    Não me restou outra coisa: servi minha própria xícara, sentei diante dele e perguntei:

    — Sua força de consciência é de décimo grau?

    O Rei Qinguang disse:

    — O que você quer dizer com isso? Não se conformou, é?

    Eu disse:

    — Não é nada disso. Você é forte mesmo. Eu só quero entender como se dividem os graus da força de consciência. Sei que as técnicas marciais se dividem em graus, do primeiro ao nono. Do décimo em diante já conta como nível de grande grão-mestre. Mas, com a força de consciência, métodos diferentes de uso dão efeitos diferentes. Ou seja, mesmo com a mesma espessura e a mesma intensidade de força de consciência, o efeito muda muito conforme o modo de usar. Yuan Lingliang, por exemplo. A força de consciência dela não é forte, mas ela domina as artes mentais e é dificílima de encarar. Isso conta como que grau? Como se faz essa divisão?

    O Rei Qinguang disse:

    — A força de consciência, em essência, é uma capacidade de compreensão perceptiva, não força marcial. Por isso ela não é medida pela intensidade, mas pelo grau de impacto. A intensidade influi diretamente no grau de impacto, só que as duas coisas não coincidem por completo. Grau de impacto se refere a quanto ela consegue influenciar. Quando lutei com você, usei a intensidade da minha força de consciência para pressioná-lo. No começo você também reagiu com intensidade. Se fosse só pela intensidade, talvez não conseguisse me superar. Mas você soube se adaptar e neutralizou pelo grau de impacto. Esse, na verdade, é o uso correto da força de consciência. Eu o admiro por isso! Essa Yuan Lingliang que você mencionou é a filha preciosa da Seita Ziyun, certo? Eu a conheço. Nós também temos medo dela. Não só porque é amiga de Pu Liuqian, mas porque as artes mentais dela podem se transformar em água e também em agulhas; a intensidade não é grande, mas o grau de impacto e o poder destrutivo são muito fortes. Por isso a classificação da força de consciência é feita pelo grau de impacto, ou, em outras palavras, pela capacidade de influência.

    Eu disse:

    — Então é isso. Há pouco o senhor da cidade quis que eu ficasse aqui exercendo um cargo, e eu não aceitei. Aí ele me enganou dizendo que aqui havia força de consciência em grande quantidade e muito forte, que era o melhor lugar para compreender força de consciência.

    O Rei Qinguang disse:

    — Ele não enganou você. A força de consciência aqui é de fato muito forte, é um lugar precioso para extrair força de consciência. E, se você estiver disposto a ir às Dezoito Camadas do Inferno, é lá que ela é mais forte. Só que você certamente vai se sentir desconfortável. A força de consciência tenaz costuma existir em pessoas que passaram por sofrimento. Quem nunca viveu dificuldades e sempre teve uma vida feliz dificilmente obtém uma força de consciência tenaz. Além disso, a força de consciência é compreendida por percepção, não pode ser incutida como as técnicas marciais. Ela é uma espécie de força espiritual própria.

    Eu disse:

    — Fui instruído! E como faço para entrar nas Dezoito Camadas do Inferno? Preciso morrer primeiro? Aí qual seria o sentido? Segundo a teoria budista, quem entra nas Dezoito Camadas do Inferno só sai passando pela reencarnação.

    O Rei Qinguang disse:

    — As Dezoito Camadas do Inferno da nossa Guiyoucheng não são o verdadeiro mundo dos mortos. São apenas uma forma mimética para encarcerar os criminosos de Guiyoucheng. Você sabe que há muita gente paranoica em Guiyoucheng. Tirando quem causa confusão grande e morre na hora, os criminosos comuns ainda precisam ser presos. Usa-se o inferno para despertá-los, não apenas para puni-los. Se quiser ir, posso nomeá-lo juiz, ou você pode entrar em estado de alma. Assim também terá algum ganho. O fato de minha força de consciência ter chegado ao décimo grau tem muito a ver com eu exercer cargo aqui. Do contrário, quem estaria à toa a ponto de aceitar trabalhar neste lugar?

    Eu disse:

    — Então, muito obrigado. Meu estado de alma eu ainda não consigo separar. Talvez seja porque a intensidade da minha força de consciência não é suficiente e ainda não chegou ao nível de materialização.

    O Rei Qinguang me olhou surpreso e disse:

    — Sua força de consciência não consegue materializar? Então a intensidade dela não chega nem ao quinto grau. Qualquer pessoa com intensidade de força de consciência acima do quinto grau já consegue materializar. E eu, com décimo grau de intensidade, empatei com alguém de menos de quinto grau. Isso é meio vergonhoso mesmo. Claro, se a divisão for pelo grau de impacto, sua força de consciência também conta como décimo grau. Porque você tem muitos recursos. Isso também mostra que sua intensidade tem um espaço enorme para crescer. Se você não for ver o lugar mais sombrio de Guiyoucheng, vai ser um desperdício enorme.

    Eu disse:

    — É justamente por isso que vim procurar você. No fim das contas, a gente se conheceu na briga.

    De repente, o Rei Qinguang se inclinou, pegou alguma coisa e me entregou, dizendo:

    — Isto é um Pincel de Juiz. Daqui a pouco vou mandar emitirem uma carta de nomeação e registrarem no sistema. Leve isto e procure os Wuchang Preto e Branco.

    Juntei as mãos em saudação e disse:

    — Então, muito obrigado!

    Saí do escritório do Rei Qinguang e fui procurar os Wuchang Preto e Branco com o Pincel de Juiz na mão.

    Na verdade, nem o senhor da cidade Feng Du nem esse Rei Qinguang eram meus amigos. Se quisessem usar aquilo para montar uma armadilha e me enganar, eu também não me importava. Afinal, eu já tinha vindo preparado para uma luta até a morte. Se realmente não desse certo, eu saía dali e ia embora. Ninguém conseguiria me deter.

    Quando encontrei os Wuchang Preto e Branco, eles viram que eu estava com o Pincel de Juiz e logo entenderam a minha intenção. Ao ouvirem que eu queria ir às Dezoito Camadas do Inferno, ambos ficaram com cara de que aquilo era inconcebível. Afinal, aquele não era um bom lugar. Não bastasse tudo o que se via por lá ser sofrimento, o principal é que havia também cheiro de sangue e podridão.

    Felizmente eu não estava indo para cumprir pena, e sim para ser autoridade. Se não quisesse ficar, podia sair a qualquer momento. Eles também não disseram nada.

    Saindo da área administrativa do castelo do senhor da cidade, chegamos a um canto escuro junto à muralha norte do castelo. Ali havia uma casa branca construída de pedra. Por dentro, a casa estava completamente vazia; no chão, apenas uma pequena porta de ferro voltada para baixo. Os Wuchang Preto e Branco apontaram e disseram: é aqui. Depois me mandaram descer sozinho. Nenhum dos dois queria ficar ali um instante mais.

    Com o Pincel de Juiz em mãos, enfiei-o na fechadura daquela portinha de ferro, e a porta se abriu.

    Levantei a porta de ferro e olhei. Era um poço vertical completamente escuro, com as paredes muito lisas e, para minha surpresa, sem escada alguma. Quem quisesse descer ou subir só poderia voar. Quanto aos criminosos, com os instrumentos de tortura e a necessidade de encarceramento, imaginei que fossem simplesmente jogados lá para baixo.

    Saltei e desci.

    Lá dentro era bem fundo mesmo, e o cheiro, de fato, não era nada agradável.

    Voei até o fundo das Dezoito Camadas do Inferno e vi que, bem no centro, havia uma enorme área de julgamento, parecida com um yamen em plena audiência. A disposição da cena e os objetos cênicos seguiam todos as normas de um yamen: salão principal, pórtico de pedra da advertência, tambor de audiência, fichas de punição, mesa de julgamento, guardas de uniforme negro, pedra de ajoelhar, objetos cerimoniais e assim por diante. Estava tudo ali, completo.

    Dos dois lados da mesa de julgamento havia alguns carcereiros de pé. Na cadeira alta atrás da mesa estava sentado um Rei Yama em pessoa, o Rei Qinguang. Bastou um olhar com minhas ondas de visão penetrante para saber que aquilo não passava do estado de alma materializado do Rei Qinguang, ou, se preferir, de uma projeção de força de consciência. Ele mesmo, na verdade, não tinha descido.

    O Rei Qinguang conseguir projetar a força de consciência até um lugar tão profundo também mostrava que a força bruta de um décimo grau era coisa séria. De todo modo, eu ainda não conseguia fazer aquilo.

    Assim que cheguei diante da mesa de julgamento, o Rei Qinguang disse:

    — Já que você desceu, os julgamentos daqui para frente ficam todos a seu cargo. Determinar os crimes cometidos pelos prisioneiros segundo as normas legais e distribuí-los às prisões correspondentes para sofrerem tormentos punitivos, tudo isso será decidido por você. Aqui você pode observar bastante o sofrimento deles. Isso também é uma forma de cultivo.

    Juntei as mãos em saudação e disse:

    — Está bem.

    Assim que terminei de falar, a figura do Rei Qinguang desapareceu.

    Então, como se fosse a coisa mais natural do mundo, sentei-me na cadeira que ele tinha acabado de ocupar.

    No instante em que me acomodei ali, informações sobre a administração, as leis, o número de prisioneiros e tudo mais das Dezoito Camadas do Inferno afloraram na minha cabeça como uma maré.

    Então era assim que autoridades antigas e novas faziam a transição? Bem prático.

    Só que fiquei sentado um bom tempo e não vi nenhum prisioneiro novo descer. Nas celas não muito distantes, porém, havia muita gente gritando injustiça, gritando de dor, gritando de aflição, com um ressentimento enorme.

    Sem nada para fazer, fui até lá dar uma olhada.

    A disposição das celas tinha como núcleo a área do yamen onde eu estava e se espalhava em círculos para fora. Havia mais ou menos uma dezena de corredores longos em forma de raios. Dos dois lados de cada corredor ficavam as celas, o interior muito escuro, com aquele cheiro de sangue e podridão.

    Cada cela ali tinha numeração e nome próprios.

    Os nomes, em sua maioria, imitavam os das “Dezoito Camadas do Inferno”. Por exemplo: Prisão do Pilar de Cobre, Prisão do Caldeirão de Óleo, Prisão da Morte Injusta, Prisão do Cesto de Vapor, Prisão da Serra e das Facas, entre outras. No local não havia as punições lendárias de fritar gente em caldeirão de óleo nem de serrar almas com facas. Mas, no cérebro dos prisioneiros encarcerados, surgiam as imagens correspondentes de tormento.

    Os prisioneiros da Prisão do Cesto de Vapor, por exemplo, não passavam por uma tortura real de cesto de vapor no local, mas, no mundo mental dentro de suas cabeças, existia o tormento da tortura do cesto de vapor. Essa era a punição pelos crimes que haviam cometido.

    Cheguei à porta de uma Prisão do Cesto de Vapor e parei ali, olhando para dentro. Havia três pessoas presas lá. Uma era gordinha, parecida com um comerciante; outra era um velho, aparentemente doente, caído no chão, tremendo sem parar; a terceira parecia um criminoso feroz, sentado muito ereto, me encarando o tempo todo com um ódio brutal.

    Nos dados que tinham acabado de ser baixados na minha cabeça havia o motivo de os três estarem presos ali. Principalmente, grave desrespeito ao Pavilhão das Sombras.

    Perguntei ao comerciante gordo:

    — Isto aqui é o mundo virtual. Por que você não sai para o mundo real, para pelo menos não sofrer aqui?

    O comerciante gordo disse:

    — Você é o juiz novo, não é? Não é que a gente não possa sair. É que estamos aceitando a punição aqui de propósito. Assim podemos redimir as culpas que carregamos e recuperar a qualificação de Humanos de Elite. Caso contrário, mesmo voltando ao mundo real, não haveria lugar para nós.

    Perguntei:

    — E você, como desrespeitou gravemente o Pavilhão das Sombras?

    O comerciante gordo disse:

    — Bebendo com outras pessoas, questionei a humanidade do Pavilhão das Sombras. Tive a sensação de que o Pavilhão das Sombras que nos governa não é formado por pessoas reais, e sim por um supercomputador altamente inteligente.

    Eu já ia perguntar às outras duas pessoas quando, sem que eu esperasse, aquele homem musculoso soltou primeiro um resmungo feroz na minha direção.

    Pelo brilho brutal no olhar dele eu sentia uma maldade completa. Então condensei força de consciência no Pincel de Juiz, apontei para ele e disse:

    — Pelas regras, tenho o direito de usar força de consciência para agravar sua punição e fazê-lo suportar mais sofrimento no Cesto de Vapor. Não se conforma?

    Aquele homem feroz disse:

    — Venha! Agrave! Vocês só sabem usar esses truquezinhos para torturar as pessoas! Eu não vou entregar assim tão fácil para você. Se tiver coragem, me solte, e vamos duelar cara a cara!

    Entregar o quê?

    Eu nem tinha dito que queria alguma coisa. O que ele quis dizer com aquilo?

    Usei imediatamente percepção por sintonia de frequência para observá-lo e senti, de fato, que ele vivia sofrendo agravamentos de tortura. Então eu disse:

    — É meu primeiro dia de trabalho. Quem torturou você foram outros. Não precisa me odiar tanto. Claro, você também pode me odiar. Afinal, agora sou eu quem administra você.

    O homem feroz disse:

    — Farinha do mesmo saco! Não me conformo. Se tiver coragem, vamos brigar cara a cara.

    Eu disse:

    — Você tem coragem! Está bem. Se eu lhe der uma chance de disputar comigo, não vou abusar de você. Mas, se você perder, o que acontece?

    O homem disse:

    — No pior dos casos, entrego a você toda a minha compreensão perceptiva da força de consciência! Mas, se você perder, tem que me soltar legalmente na mesma hora!

    O quê?

    Então a compreensão perceptiva da força de consciência podia ser entregue?

    Nem o senhor da cidade nem o Rei Qinguang tinham falado uma palavra sobre isso!

    Usei na hora percepção por sintonia de frequência para investigar o corpo de consciência dele. O homem sentiu imediatamente, formou uma barreira defensiva dentro do próprio corpo de consciência e disse:

    — Nem pense em conseguir por esse caminho. Eu fechei minha compreensão perceptiva. Você não vai obtê-la. A não ser que eu a abra para você.

    Ah?

    Então, desde que a outra pessoa abra a compreensão perceptiva da força de consciência, eu podia obtê-la por meio da percepção por sintonia de frequência?

    Se isso também funcionava, eu não iria ficar rico?

    Todos os prisioneiros daqui poderiam ser colhidos por mim.

    Não era à toa que o senhor da cidade dizia que a força de consciência era “extraída”. Então era extração de verdade!

    Não era à toa que diziam que este lugar era um tesouro de força de consciência. Acontece que o verdadeiro tesouro não era o extravasamento das emoções, nem o fluxo da força de consciência, mas tomar tudo à força!

    Não era à toa que, com tanta gente paranoica e extrema nas ruas, eu não tinha visto ninguém por lá extraindo ou compreendendo força de consciência. E ainda me enganaram dizendo que era preciso compreender em meio ao sofrimento daqui, dizendo que minha compreensão da força de consciência era insuficiente. No fim, tudo aquilo não tinha absolutamente nada a ver com paranoia, com extremos, nem com insuficiência de compreensão da força de consciência.

    Nota