Novels chinesas em português
    Índice do Capítulo

    Capítulo 093 — Agradecer não é necessário

    Foi Li Ruobing quem mandou Wu Chen levar Su Qingying embora. Era o que a senhora Su supunha, e ela achava que não podia estar errada; caso contrário, não haveria como explicar a atitude atual de Li Ruobing. Por isso, perguntou sem rodeios.

    — Senhora Su, antes de tudo, preciso corrigir uma coisa no que a senhora disse. — Sentada de frente para ela, Li Ruobing falava com toda a calma. — Primeiro: meu namorado não levou sua filha à força. Eu e a senhorita Qingying tínhamos combinado de nos encontrar, mas surgiu um imprevisto para mim, então pedi ao meu namorado que fosse buscá-la.

    — Isso! Eu e a senhorita Ruobing tínhamos combinado — Su Qingying, sentada na poltrona lateral, confirmou na hora.

    A senhora Su lhe lançou um olhar imediato, fixando os olhos nela.

    Su Qingying murchou no mesmo instante. Ficou visivelmente desconfortável e não ousou dizer mais nada.

    — Ah, é mesmo? — A senhora Su voltou os olhos para Li Ruobing. — Então por que fui informada de que o senhor Wu agarrou minha filha e saiu correndo com ela?

    — Senhora Su, sua filha não é uma boneca. Se estivesse realmente sendo forçada, não saberia gritar por socorro?

    — Mas talvez minha filha tenha se deixado levar por palavras bonitas. Pode ter sido vendida e ainda ter ajudado a contar o dinheiro.

    — Sua filha já tem vinte e sete anos. Não é uma garotinha sem noção do mundo. A senhora acha isso possível? Ser enganada assim?

    — Minha filha é bondosa demais.

    A senhora Su e Li Ruobing se encaravam.

    Nenhuma das duas deixava escapar o menor traço de irritação no tom, mas bastaram poucas frases para o confronto ficar afiado.

    A senhora Su não perguntou a Su Qingying o que realmente havia acontecido.

    Na verdade, nem sequer a deixava falar.

    Porque sabia que a filha já tinha “se rebelado” e não falaria a seu favor.

    E ela jamais culparia a própria filha na frente de estranhos!

    Caso contrário, a errada passaria a ser Su Qingying.

    E então quem mais ela poderia culpar?

    Ficaria sem margem para procurar defeitos, e certas perguntas se tornariam impossíveis de fazer.

    — Senhora Su, não quer saber por que marquei de encontrar sua filha? — Li Ruobing mudou de assunto de repente e perguntou diretamente.

    — Diga, senhorita Li. Sou toda ouvidos. — A senhora Su fez um gesto com a mão que segurava a xícara, tomou um gole de chá com elegância e continuou observando Li Ruobing sem demonstrar raiva.

    — Na verdade… — Li Ruobing fez uma pausa antes de prosseguir. — Os assuntos da família Su não têm nada a ver comigo. Eu não pretendia me envolver. Mas… a senhorita Qingying me disse em particular, mais de uma vez, que me invejava. Disse que queria ser uma mulher como eu: alguém que não fica atrás de ninguém, que pode decidir a própria vida, que pode alcançar sucesso profissional tanto quanto um homem!

    — Eu e a senhorita Qingying temos muita coisa em comum. Em vários aspectos, ela é até melhor do que eu. Mas ela… não tem uma vida própria! Não sei se a senhora entende o que quero dizer…

    Enquanto falava, Li Ruobing endireitou bastante o corpo, inclinou-se um pouco à frente e cravou os olhos na senhora Su.

    — A senhorita Qingying não é uma pessoa viva de verdade. É apenas uma boneca que a senhora enfeitou com todo o cuidado, uma marionete que não pode decidir nem quantas tigelas de arroz vai comer!

    A expressão da senhora Su mudou na hora. Ela virou a cabeça para Su Qingying.

    Afinal, o que a filha tinha contado a Li Ruobing, uma pessoa de fora?! Contava tudo?!

    Su Qingying desviou o olhar da mãe.

    — Senhorita Li! — A senhora Su tornou a encará-la, agora muito mais séria. — Com todo o respeito, a senhora é uma pessoa de fora. Meta-se menos nos assuntos da minha família! Tenha compostura!

    Endureceu de uma hora para outra.

    — Eu já disse que isso não tem nada a ver comigo e que originalmente não pretendia me envolver. — Li Ruobing não se intimidou. — Mas a senhorita Qingying me pediu ajuda vezes demais… Talvez porque eu consiga sentir na pele o que ela sente. Na minha própria família, passei por algo parecido. Eu quase não pude nem decidir meu casamento!

    — Por isso… na verdade, meu encontro com a senhorita Qingying hoje era só para conversar e tentar abrir os olhos dela.

    Li Ruobing fez outra pausa e então franziu a testa para a senhora Su.

    — A senhora ainda não entende? Realmente não entende? Seu controle sobre sua filha é rígido demais. A senhora quer controlar tudo, e ela já começou a apresentar problemas psicológicos! Senhora Su, a senhora não quer empurrar sua filha para a morte, quer?

    — Você…!

    A senhora Su levantou-se de um salto, o rosto tomado de raiva, apertando a xícara com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, os olhos cravados em Li Ruobing.

    As palavras de Li Ruobing tinham sido pesadas.

    E o que a senhora Su mais detestava era alguém apontando o dedo para o modo como ela educava a filha!

    Li Ruobing não era a primeira pessoa a lhe dizer aquilo. O pai de Su Qingying, seu marido Su Ruiwen, também já tinha tentado aconselhá-la!

    Quanto mais tentavam convencê-la, maior era sua aversão e mais furiosa ela ficava!

    Se a mulher que dizia aquilo naquele momento não fosse Li Ruobing, talvez a xícara já tivesse voado.

    Ao ver a senhora Su se levantar, Li Ruobing permaneceu impassível. Recostou-se um pouco, pegou a bolsa e tirou de dentro dela aquele saquinho branco de papel todo amassado.

    Era o saquinho da farmácia. O remédio comprado por Su Qingying continuava lá dentro.

    Depois que Su Qingying o entregara a ela, Li Ruobing aproveitara uma oportunidade para guardá-lo na bolsa. Como havia sido dobrado, estava um pouco amassado.

    Toc!

    Li Ruobing jogou o saquinho branco sobre a mesa.

    Um gesto aparentemente sem pé nem cabeça.

    A senhora Su olhou para o saquinho, tornou a encarar Li Ruobing e franziu a testa.

    — O que isso significa?

    — A senhora sabe o que é isto? — Li Ruobing indicou o pacote e respondeu à própria pergunta. — Remédio! Um remédio que eu tomo! Não tenho me sentido muito bem ultimamente, então estou tomando remédio. Mas sabe… quem comprou isto?

    A senhora Su continuou olhando para Li Ruobing sem responder. Sabia que ela prosseguiria.

    — Foi sua filha. — E Li Ruobing prosseguiu, como esperado, sustentando o olhar dela. — Hoje, quando estávamos na casa do meu namorado e eu conversava com ela, mencionei que estava tomando um remédio.

    — Percebi que não tinha trazido comigo. Ia pedir a um guarda-costas que comprasse e me trouxesse, mas, quando fiz a ligação, sua filha ouviu. Adivinhe como ela reagiu.

    — Ela disse que iria comprar. Insistiu que seria ela. E ainda disse… que nunca, em toda a vida, tinha ido sozinha a uma farmácia comprar remédio! Uma farmácia, coisa que existe em qualquer esquina, e a experiência de entrar sozinha para comprar um remédio era uma novidade para ela!

    A expressão da senhora Su se alterou. Ela lançou um olhar estranho à filha e depois se voltou para Li Ruobing.

    — Quer saber o que mais ela fez hoje?

    — Ela cozinhou para mim e para Wu Chen! Lavou os legumes, preparou tudo, fez os pratos sozinha!

    — E ainda perguntou se estava gostoso. Quando dissemos que sim, ela ficou tão feliz… de verdade, feliz demais!

    — Também limpou a casa e lavou nossas roupas. Tentamos impedir e não conseguimos. Ela simplesmente… ficou reprimida por tempo demais, a senhora entende, senhora Su?

    — Ela sabe muito bem que, aconteça o que acontecer, depois de fugir de casa… no fim vai ter que voltar. Vai voltar a ficar sob seu controle.

    — Então parece que hoje ela quis fazer, de uma vez, todas aquelas coisas que qualquer pessoa comum pode fazer e que a senhora nunca deixou que ela fizesse! A senhora tem ideia do quanto esse tipo de reação de compensação pode ser assustador?

    — Senhora Su, pergunte com sinceridade a si mesma: a senhora realmente não acha que controla demais a vida dela?

    Li Ruobing falava com seriedade, num tom solene. Cada frase parecia bater direto no peito da senhora Su.

    Ela própria jamais teria imaginado que a filha faria naquele dia tantas coisas que, a seus olhos, não deveria fazer. Sua expressão foi mudando pouco a pouco, acompanhando as palavras de Li Ruobing.

    Quando Li Ruobing terminou, já não havia em seu rosto a raiva de quando se levantara. Sua expressão era de uma complexidade extrema.

    Ela voltou a olhar para a filha e percebeu que Su Qingying, que também tinha ouvido tudo aquilo, estava com os olhos avermelhados.

    Embora Li Ruobing tivesse misturado verdade e mentira, suas palavras também haviam atingido em cheio o coração de Su Qingying.

    Naquele instante, surgiu na senhora Su uma ponta de compaixão e culpa.

    Mas ela reprimiu esse sentimento no mesmo instante.

    — Quer dizer, então… — A senhora Su tornou a se sentar, arrastando as palavras — que eu ainda tenho de agradecer, é isso, senhorita Li?

    Já havia recuperado a calma e a elegância.

    — Agradecer não é necessário — respondeu Li Ruobing.

    — Ainda tenho uma pergunta! — A senhora Su emendou de repente, falando rápido, os olhos direto em Wu Chen. — Senhor Wu, embora eu saiba que o senhor e a senhorita Li talvez tivessem… boas intenções. Digamos que sim…

    — Mas… não sei se poderia me explicar uma coisa. Quando estava no campo de golfe com minha filha, por que ficou abraçando e agarrando ela? O senhor também… passou as mãos nela e ainda bateu na… bunda da minha filha? Bateu, não bateu? Pode me explicar?

    Assim que a senhora Su terminou a pergunta, a atmosfera da sala mudou por completo.

    Até a expressão de Li Ruobing ficou estranha.

    Nota