Capítulo 033 — Você ainda se lembra de Ma Huifang?
por NexoNovelCapítulo 033 — Você ainda se lembra de Ma Huifang?
Até Wu Chen e Lu Guangnian atravessarem a porta do restaurante, os clientes lá dentro continuaram olhando para os dois. Já não encaravam de forma tão descarada quanto antes, mas o olhar de ninguém chegou a se afastar deles de verdade.
Do lado de fora, havia carros de luxo por toda parte.
Wu Chen e Lu Guangnian só pararam quando chegaram junto a um canteiro de flores.
— Chefe Lu, acreditou no que eu disse? — Wu Chen, com uma das mãos no bolso, lançou-lhe um olhar de lado e depois voltou os olhos para a avenida movimentada.
A noite já havia caído. A avenida era um vaivém incessante de carros, envolta num brilho colorido e difuso.
— Pelo menos numa coisa você acertou. Ela mentiu pra mim. Ela e Liu Ligang realmente têm alguma coisa. Eu vou investigar. — Lu Guangnian dizia não ter acreditado em tudo, mas, na verdade, já acreditava em pelo menos oitenta por cento.
Só que nenhum homem gosta de admitir que levou chifre.
E, no caso dele, aquilo estava longe de caber na palavra “chifre”.
Era uma armação para tomar sua fortuna e sua vida!
— Como é que você sabe dessas coisas? Quem te contou? — Lu Guangnian tornou a olhá-lo de esguelha.
— Chefe Lu, você precisa entender uma coisa. Se não fosse pela sua amizade pessoal com Ruobing e pelo fato de você e A-Tai se tratarem como irmãos, eu não teria contado nada disso. — Wu Chen deu um sorriso leve e continuou: — Ter te encontrado hoje foi coincidência. Estou te contando por consideração aos dois irmãos, Ruobing e A-Tai. Não há necessidade de investigar por que eu sei.
Wu Chen voltou a olhar a paisagem noturna e agitada da avenida, e disse com indiferença:
— Afinal, não dá pra deixar gente ruim conseguir o que quer, não é?
Lu Guangnian ficou algum tempo em silêncio.
Não conseguia decifrar Wu Chen.
Wu Chen lhe passava uma sensação muito peculiar. Havia muito tempo que quase ninguém falava com Lu Guangnian naquele tom. Até a ajuda que estava recebendo não vinha por causa de seu poder ou de sua influência, mas por consideração a outras pessoas.
O namorado de Li Ruobing…
Lu Guangnian já acreditava que Wu Chen era realmente o homem de Li Ruobing.
Ele havia conhecido os três namorados de fachada anteriores dela e nunca lhes dera um olhar de frente. Não passavam de capachos submissos, usados como escudo.
O jeito de Wu Chen agir fazia Lu Guangnian sentir que ele e Li Ruobing estavam em pé de igualdade. Deixar Li Ruobing sozinha no restaurante e chamar Lu Guangnian para conversar em particular já bastava como prova.
E a maneira como Li Ruobing havia defendido Wu Chen pouco antes, com aquela frase — “Meu namorado. O ‘aproveitador’ de que sua esposa falou” —, também fizera Lu Guangnian entender o lugar que Wu Chen ocupava no coração dela.
Lu Guangnian especulou sobre a origem de Wu Chen. Ou ele vinha de uma grande família, ou… talvez tivesse uma identidade bastante especial, ou algum talento fora do comum.
Mas nada disso era o ponto principal.
Lu Guangnian não estava nem um pouco preocupado com quem Wu Chen realmente era. Naturalmente, se importava muito mais com os próprios problemas.
— Valeu, irmão. — Lu Guangnian deu um tapinha no ombro de Wu Chen.
Despida das identidades e das relações sociais entre os dois, aquela frase era simplesmente um agradecimento sincero!
Lu Guangnian era mais de trinta anos mais velho que Wu Chen e ainda assim o chamava de irmão. Era um hábito seu, e também tinha a ver com sua mentalidade jovem.
Um homem comum de cinquenta e seis anos talvez já tivesse netos. Lu Guangnian, porém, passara muito tempo sem conseguir ter filhos, e isso inevitavelmente afeta a cabeça de uma pessoa.
Era como uma mulher de quarenta anos que nunca se casou e continua se vestindo de forma jovem e elegante, enquanto outra, que se casou aos vinte, aos quarenta já tem filhos adultos. Depois de tantos anos sendo mãe, sua visão de vida, seus valores e sua mentalidade naturalmente seriam diferentes.
— Você contou isso pra mais alguém? — perguntou Lu Guangnian.
— Ainda não — respondeu Wu Chen. — Mas imagino que daqui a pouco Ruobing vai perguntar o que eu te disse.
Lu Guangnian passou a mão pelos cabelos, virou-se para a paisagem da rua, e nos seus olhos havia uma amargura e uma tristeza difíceis de dizer.
— Tanto faz. Não existe parede que não deixe o vento passar. Mais cedo ou mais tarde alguém vai descobrir — disse Lu Guangnian, e voltou a se calar.
— O que pretende fazer com Liu Caixiu, com Liu Ligang e… com aquela criança? — perguntou Wu Chen.
Lu Guangnian hesitou, virou-se para Wu Chen e devolveu a pergunta:
— A criança realmente não é minha?
Nem ele próprio sabia por que acreditava tanto em Wu Chen. Talvez porque suas palavras tivessem desatado dúvidas que o atormentavam havia muitos anos.
Todas aquelas coisas estranhas que ele nunca conseguira entender passaram a fazer sentido no instante em que Wu Chen revelou que Liu Caixiu e Liu Ligang não eram irmãos.
Mesmo assim, Lu Guangnian ainda desejava que o menino fosse seu filho.
Era um homem muito tradicional. Queria ter filhos que, depois de sua morte, herdassem tudo o que havia construído.
— Não é seu — afirmou Wu Chen, com absoluta certeza. — Liu Caixiu calculou o momento exato para aparecer ao seu lado. Foi justamente nos dias em que estava ovulando. Depois de ficar com você, ela foi encontrar Liu Ligang… Na verdade, você deveria entender a própria condição. A menos que aconteça um milagre, você não pode mais ter filhos.
O rosto de Lu Guangnian ficou péssimo. Ele olhou para a rua à direita, depois para a rua à esquerda, sem parecer enxergar coisa alguma. Seu olhar não tinha foco, e havia um vermelho leve ao redor de seus olhos.
— Amanhã eu vou fazer outro teste de paternidade.
Depois de dizer isso, fungou e tirou do bolso um maço ainda lacrado de Huanghelou 1916.
Pelo que Wu Chen sabia, Lu Guangnian já havia sido um fumante inveterado. Depois que Liu Caixiu engravidou, porém, largara o cigarro por dois anos. Mais tarde voltara a fumar, mas de maneira muito controlada: fumava apenas alguns cigarros por dia.
Ainda assim, sempre carregava um maço consigo.
Não para si mesmo, e sim para oferecer a outras pessoas em ocasiões sociais.
Lu Guangnian abriu o maço, tirou um cigarro e o estendeu casualmente para Wu Chen.
— Não fumo. — Wu Chen ergueu a mão em recusa.
Lu Guangnian então colocou o cigarro na boca, acendeu, tragou fundo e soltou a fumaça. Fungou com força outra vez, o olhar vagando pela rua. Era fácil perceber que seus pensamentos eram uma confusão.
Ele precisava do tabaco para aliviar a pressão dentro da cabeça.
De repente, como se tivesse se lembrado de algo, Lu Guangnian tirou o celular, ligou para um número e foi direto ao ponto:
— Ermin, leva alguns homens e encontra Liu Ligang. E também aqueles da empresa que andam muito com ele, Li Ying, Dong Zhiheng e os outros. Leva todo mundo praquela villa no subúrbio oeste. Isso… prende todos lá e espera eu chegar.
Xu Ermin, vice-presidente executivo sênior do Grupo Juli, era um velho irmão que acompanhava Lu Guangnian havia décadas.
Depois de desligar, Lu Guangnian continuou fumando e tornou a se perder nos próprios pensamentos. Naquele momento, sua cabeça era um caos, cheia de coisas demais.
— Como diz o ditado, se vai ajudar alguém, ajude até o fim; se vai acompanhar Buda, acompanhe-o até o Oeste. — Wu Chen soltou a frase com um leve sorriso, virou-se para Lu Guangnian e perguntou: — Você ainda se lembra de Ma Huifang?
Lu Guangnian voltou a si e o olhou de lado.
Seu olhar mudou.
— Pela sua idade, você deve ter pouco mais de vinte anos. Até dela você sabe? — perguntou.
Ma Huifang tinha sido a primeira namorada de Lu Guangnian, mais de trinta anos antes.
— Não sei só quem ela é. Também sei que ela terminou com você porque você a traiu. Naquele ano você tinha vinte e três anos, certo? — disse Wu Chen.
— Vocês se conheceram aos dezessete e ficaram juntos seis anos. No fim, você a traiu por causa de uma mulher de um salão de dança.
As palavras de Wu Chen soaram um tanto cortantes.
Lu Guangnian ficou calado.
Tantos anos haviam passado que ele quase já esquecera o rosto de Ma Huifang. Mas o nome dela nunca esqueceria. Ficaria gravado em sua memória pelo resto da vida.
Aquilo acontecera nos anos 1990, quando o país atravessava uma grande onda de desenvolvimento. Quem tinha coragem de se arriscar e lutar enriquecia com facilidade. Ficar rico da noite para o dia não era sonho.
Lu Guangnian era justamente um homem disposto a se arriscar e lutar. Ele e Ma Huifang se amavam muito e chegaram a planejar o casamento. Mas, depois que conheceu certas pessoas e começou a ganhar dinheiro, perdeu-se.
Na época, não achava que estava errado. Achava que Ma Huifang já não estava à sua altura. Só depois de alcançar o sucesso, ao olhar para trás, percebeu que o errado era ele.
O erro estava cometido.
E o que fora perdido, estava perdido.
— Você me investigou? — Lu Guangnian se virou para Wu Chen, agora com o rosto sério. Um rapaz da idade dele saber de algo tão distante era motivo mais que suficiente para desconfiança.
— Isso não importa, não é? Se quiser saber o que eu faço, pode perguntar à Ruobing e ver se ela vai te contar.
Wu Chen continuou:
— O importante é que eu também sei que Ma Huifang, quando terminou com você, já estava grávida! Ela não abortou. Teve a criança. Um menino. Então hoje você não só tem um filho como já tem até uma neta.
Ploc!
O cigarro escapou da mão de Lu Guangnian e caiu no chão.
Ele ficou olhando Wu Chen de olhos arregalados, completamente atônito.
