Capítulo 003 — Você não conhece as regras?
por NexoNovelCapítulo 003 — Você não conhece as regras?
Mu Qianqian estava paralisada de medo, parada ao lado sem conseguir se mover. Embora fosse ousada e gostasse de fortes emoções, nunca tinha visto uma cena daquelas.
Queria fugir, só que tinha a impressão de que todos os marginais estavam com os olhos grudados nela e em Wu Chen.
A ligação de Wu Chen foi atendida rápido.
— Alô? Como você conseguiu este número? Quem é você? — A voz que saiu do celular era rouca e cautelosa. Aquele era um número particular que pouquíssimas pessoas conheciam; só gente importante conseguia falar com ele por aquela linha.
— Zhao Guaizi, muito bem, hein? Seus homens sabem mesmo arrumar confusão. E o que foi que ficou combinado na reunião de maio? Não era todo mundo ganhar dinheiro junto? Você quer começar uma guerra e virar Donghai de cabeça para baixo outra vez? — Wu Chen abriu a conversa com uma enxurrada de cobranças.
Do outro lado da linha, Zhao Guaizi ficou completamente perdido.
O sujeito sabia da reunião de maio.
E conhecia aquele número.
Isso significava que…
— O senhor… o senhor é…? — perguntou Zhao Guaizi com o máximo cuidado.
— O Jovem Mestre Li me pediu para te passar um recado. Controle os seus homens. Na próxima vez, não vai se resolver com uma simples ligação. Está entendido? — disse Wu Chen.
— Jovem Mestre Li… então o senhor é… S-sim, sim, sim, sim! Eu garanto! Fique tranquilo, não vai haver uma próxima vez. Desta vez a culpa foi minha. Eu vou corrigir tudo!
Na verdade, Zhao Guaizi não tinha a menor ideia do que havia acontecido, mas assumiu a culpa primeiro.
— Bom. Espere um instante. — Wu Chen ergueu os olhos para Liu Huzi. — Atende.
Pôs o celular na mesa e o deslizou na direção dele.
Liu Huzi pegou o aparelho meio desconfiado. Assim que ouviu a voz, ficou respeitoso na mesma hora.
— Chefe, sou eu… Sim, sim… Chefe, não, não é isso. A gente está no bar de Wang Zhuangyuan. Não é nada de mais, é só que… Sim, chefe. Chefe, eu errei. Chefe… eu…
Quanto mais Liu Huzi falava, mais assustado ficava. O suor frio já lhe escorria pela testa.
Pouco depois, terminou de ouvir o que Zhao Guaizi tinha a dizer. Deu alguns passos à frente e devolveu o celular a Wu Chen, segurando-o com as duas mãos, em sinal de respeito.
Wu Chen levou o aparelho ao ouvido.
— Desta vez a culpa foi nossa. Pode ficar tranquilo, não vai haver uma próxima. Liu Huzi está à sua disposição, faça dele o que quiser — disse Zhao Guaizi, num tom de extremo cuidado.
— Certo. Tudo bem. — Wu Chen desligou e olhou para Liu Huzi.
PLOFT!
Liu Huzi caiu de joelhos ali mesmo.
— Chefe! Eu errei! Tenho pais idosos e filhos pequenos para sustentar. Eu não quero morrer, chefe! Tenha piedade! A culpa foi minha! Eu admito!
PÁ! PÁ!
Enquanto implorava, Liu Huzi dava tapas no próprio rosto.
Os subordinados em volta ficaram apavorados com a cena. Alguns nem se atreviam a olhar Wu Chen de frente.
— Pede desculpa para ela. Você a assustou. — Wu Chen inclinou a cabeça na direção de Mu Qianqian.
Liu Huzi se arrastou de joelhos e girou o corpo para Mu Qianqian. Então voltou a implorar, batendo no próprio rosto:
— Cunhada, eu errei! Cunhada, me perdoe! Eu nunca mais faço isso! Diz alguma coisa, cunhada! Eu faço o que a senhora mandar, qualquer coisa, só não me deixe morrer…
Chamá-la assim, de “cunhada”, deixava claro que Liu Huzi havia entendido errado a relação entre Mu Qianqian e Wu Chen.
Mu Qianqian ficou sem saber o que fazer e olhou para Wu Chen como se pedisse socorro.
— Chega. Já está tarde e eu preciso voltar para casa para dormir. Vamos deixar por isso mesmo — disse Wu Chen.
— Obrigado, chefe! Obrigado, cunhada! — Liu Huzi se alegrou. Tão emocionado que chegou a bater duas vezes com a testa no chão, diante de Wu Chen e Mu Qianqian.
Levantou-se e já ia sair com seus homens. Provavelmente nunca mais pisaria naquele bar pelo resto da vida.
— Vai embora assim? — disse Wu Chen, sempre com indiferença.
Liu Huzi travou no meio do passo. Virou-se com um sorriso enorme no rosto.
— O senhor tem mais alguma ordem?
— Você não conhece as regras? Vai simplesmente embora? Faz uma besteira e não deixa nada para trás? — Wu Chen ergueu os olhos e encarou Liu Huzi com um olhar sombrio.
Liu Huzi entendeu.
Endureceu a expressão, rangeu os dentes, deu um passo à frente e puxou uma faca.
Mu Qianqian levou um susto e se encolheu depressa na direção de Wu Chen.
Liu Huzi segurou a faca com a mão direita e espalmou a esquerda na mesa, os cinco dedos bem abertos.
TAC!
A lâmina desceu. O rosto de Liu Huzi ficou branco como cera, mas ele não soltou um único som. Havia decepado o próprio dedo mínimo da mão esquerda.
Largou a faca, arrancou algumas folhas de papel e apertou-as contra o ferimento. Depois voltou a olhar Wu Chen com um sorriso forçado.
— Chefe, assim está bom?
— Está. — Wu Chen se levantou e se espreguiçou. — Eu vou embora. Mas você não vai sair assim, não. Vocês atrapalharam o movimento do bar. Não esqueça de indenizar o pessoal.
— Sim, sim, sim. Tudo como o senhor mandar. — Liu Huzi assentia repetidamente, com o corpo curvado.
— Fui.
Wu Chen caminhou para a saída. Todos os homens em volta abriram passagem automaticamente, de cabeça baixa, sem coragem de olhá-lo.
Mu Qianqian foi atrás às pressas e se agarrou ao braço dele, olhando para trás a cada dois passos.
Wu Chen não tinha a menor intenção de levá-la consigo.
O problema estava resolvido. Ninguém mais ousaria tocar em Mu Qianqian.
Mas ela estava com medo.
No instante em que os dois saíram do bar, mais de dez carros acabavam de estacionar ao pé da escada da entrada. Na maioria, vans executivas e utilitários, além de dois superesportivos: uma Lamborghini branca e uma Ferrari vermelha.
Dos veículos desceram uns quarenta ou cinquenta homens, todos com objetos compridos embrulhados em jornal na mão. Provavelmente eram facões.
O líder saiu da Lamborghini.
Era um homem de baixa estatura e muito magro, pouco mais de trinta anos, de óculos, com um ar culto e refinado.
Era ele: Wang Zhuangyuan, nome de peso no submundo de Donghai. Wang Zhuangyuan era como o chamavam nesse meio; seu nome verdadeiro era Wang Zhe, e quinze anos antes ele tinha sido o primeiro colocado de Donghai no gaokao da área de ciências.
Pouco antes, Wang Zhuangyuan havia terminado de cuidar do enterro de um parente mais velho e estava fazendo uma refeição com os homens de confiança.
Recebeu de repente um aviso do pessoal do bar: os homens de Zhao Guaizi estavam arrumando confusão no Bar Huahe, que ficava sob seu controle. Reuniu os subordinados e veio direto para o bar.
Mu Qianqian parecia ter menos de vinte anos, e Wu Chen tinha aquela cara inofensiva de universitário.
Wang Zhuangyuan e as dezenas de homens não prestaram a menor atenção nos dois e foram direto para dentro do bar.
No instante em que passou raspando por Wang Zhuangyuan, a mão de Wu Chen se moveu de leve. Ninguém percebeu.
Os dois desceram os degraus e chegaram à calçada.
Wu Chen olhou para trás, para cima, e esperou até Wang Zhuangyuan e os outros entrarem. Só então tirou uma chave do bolso e apertou o botão.
As luzes da Lamborghini branca piscaram. O carro destravou.
— Você… — Mu Qianqian ficou pasma.
— Peguei dele agora, quando a gente passou. Vem comigo? — perguntou Wu Chen, virando a cabeça.
Roubar o carro?
Mu Qianqian hesitou um instante e assentiu.
Os dois entraram.
Wu Chen saiu dirigindo a Lamborghini e levou Mu Qianqian embora dali.
Roubar carros era coisa que Wu Chen fazia com frequência. Como tudo se reiniciava todos os dias, para ele dava no mesmo. Era pelo mesmo motivo que se atrevia a matar sem pensar duas vezes.
Ainda assim, embora já tivesse feito muita maldade, Wu Chen nunca havia matado inocentes indiscriminadamente.
A prisão naquele mesmo dia já durava mais de mil anos. Ele já havia se desesperado, enlouquecido, se matado centenas de vezes, mas sempre acordava às 7h da manhã de um novo 7 de julho.
Nem morrer ele conseguia.
No fim, Wu Chen acabou aceitando a situação. Decidiu viver cada dia da forma mais plena possível. Impôs a si mesmo todo tipo de desafio, disposto a tornar aquela vida sem fim interessante, rica, cheia de cores.
…
Meia hora depois.
A Lamborghini branca voava por uma via elevada, já passando dos 200 quilômetros por hora. Havia poucos carros àquela hora da noite, mas mesmo assim passaram por vários momentos de perigo.
— Uhuu! Hahahahaha! — Mu Qianqian ria alto e comemorava, exultante.
Já tinha se recuperado do susto. Era de temperamento selvagem e também gostava de emoções fortes, e tudo o que viveu naquela noite podia ser considerado o dia mais eletrizante dos seus dezoito anos de vida.
Ela tinha conhecido um homem extraordinário.
Depois de deixar a via elevada, Wu Chen reduziu a velocidade e foi parando aos poucos junto ao acostamento.
— Desce e pega um táxi para casa — disse, com as mãos no volante.
— Eu tenho que ir de táxi? — Mu Qianqian piscou. — Você não vai me levar em casa?
— É longe demais. Estou com sono.
— Você sabe onde eu moro?
— Claro. Quantas vezes eu já disse? Não é a primeira vez que eu te conheço.
— Ah, você ainda está tentando me enganar! — Mu Qianqian bufou, mas voltou a rir. Pensou um instante e falou, com um sorriso e uma expressão esquisita: — Hoje eu não vou voltar para casa.
— Então vai para onde? — perguntou Wu Chen.
— Espera aí.
Mu Qianqian revirou a bolsa, tirou um vidrinho de removedor de maquiagem e alguns discos de algodão. De frente para um espelhinho, começou a limpar o rosto às pressas.
Em pouco tempo, o rosto dela estava limpo.
— E agora, que nota eu mereço? — perguntou, virando-se para ele com um sorriso maroto.
Wu Chen sorriu, depois desviou os olhos para o para-brisa.
— 9.
Engatou a marcha e arrancou.
A Lamborghini voltou à estrada.
Para casa!
